A FORMAÇÃO DE UMA AGENDA ESPIRITUAL


Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por vossa causa, até que Cristo seja formado em vós...- Gálatas 4:19

Atualmente o mundo clama pelo crescimento espiritual de uma teologia que tem trabalhado na realidade cruel da vida diária. Infelizmente, muitos têm desistido da possibilidade de crescimento em relação à formação. Um vasto número de pessoas bem intencionadas tem se exaurido no trabalho da igreja e descoberto que isto não influencia suas vidas substancialmente. Eles descobriram que simplesmente eram impacientes, egocêntricos e medrosos quando começaram a carregar o fardo pesado do trabalho na igreja. Talvez até mais.

Outros têm submergido em múltiplos projetos de trabalhos de serviço social. Mas quando o ardor de ajudar aos outros esfriou por um tempo, eles perceberam que todos os seus esforços hercúleos deixaram poucas marcas duradouras em sua vida interior. De fato, isso os deixa mais doloridos: frustração, raiva e amargura.

Ainda existem os que possuem uma prática teológica que não permite um crescimento espiritual. De fato eles deveriam ver isto como uma coisa ruim. Havendo sido salvos pela Graça, essas pessoas têm ficado paralisadas nisso. A tentativa de qualquer progresso espiritual tem um sabor de “obras de retidão” para eles. Sua liturgia diz que eles pecam em palavras, pensamentos e atitudes diárias, então eles pensam ser esse seu destino até morrerem. O Céu é o seu único alívio nesse mundo de pecado e rebelião. Consequentemente, essas pessoas bem intencionadas vão sentar em seus bancos na igreja e, um ano depois vão perceber que nenhum avanço foi feito em suas vidas com Deus.

Enfim, um mal-estar geral nos toca a todos. Refiro-me ao modo como nos acostumamos completamente com a normalidade de disfunção. A constante exploração da mídia em relação aos escândalos, vidas partidas e mazelas de toda sorte nos deixa não muito mais do que simplesmente chateados. Temos que esperar um pouco mais do que isso, ao menos de nossos líderes religiosos – talvez, especialmente de nossos líderes. Esta disfunção é tão infiltrada em toda a parte que é quase impossível termos uma visão clara do progresso espiritual. Modelos exuberantes de santidade são raros hoje em dia. Ecoando através dos séculos até os dias de hoje, estão inúmeras testemunhas que nos contam sobre uma vida muito mais abundante, profunda e completa. Em qualquer posição social ou em qualquer situação da vida, eles encontraram uma vida de “retidão, paz e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:17). Eles descobriram que uma transformação real, sólida à imagem de Cristo, é possível.

Eles testemunham para a formação de um caráter quase espantoso. Eles têm visto suas paixões egocêntricas darem lugar a um coração abnegado e humilde, que assusta até a eles mesmos. Raiva ódio e malícia são substituídas por amor, compaixão e boa vontade total.

Há mais de 2.000 anos de registros das vidas de grandes pessoas – Agostinho, Francis, Teresa, Kempis e muitos outros que, após seguiram arduamente nos caminhos de Jesus, tornando-se pessoas com um caráter ilibado. Os registros estão aí para quem quiser ver.

Há trinta anos, quando a Celebration of Discipline (Celebração da Disciplina) foi escrita, nós enfrentamos duas grandes incumbências: a primeira é que foi preciso rever a grande discussão sobre a formação da alma; a segunda foi encarnar esta realidade nas experiências diárias na vida individual, congregacional e cultural. Francamente, nós temos tido sucesso com a primeira tarefa. Todos os tipos de cristãos agora sabem da necessidade de formação espiritual, e olha para santos católicos, ortodoxos e protestantes para guiá-los

Mas é a segunda tarefa que precisa consumir a parte principal de nossa energia nos próximos 30 anos. Se nós não fizermos um progresso real nessas frentes, todos os nossos esforços vão evaporar e secar.

Um lembrete honesto antes de começar pra valer: a formação espiritual não é um kit de ferramentas para “consertar” a nossa cultura ou as nossas igrejas ou mesmo as vidas individualmente. Nós temos que trabalhar a formação espiritual porque este é o trabalho do Reino. Ele está bem no centro do mapa do Reino de Deus. Consequentemente, todos os demais problemas nós prazerosamente deixamos nas mãos de Deus.

Trabalhar o coração – Deus tem dado a cada um de nós a responsabilidade de “crescer em Graça” (II Pedro 3:18). Isto não é algo que possamos transferir para os outros. Nós temos que tomar as nossas cruzes individuais e seguir os passos do Cristo crucificado e ressurreto.

Todo trabalho de formação autêntico é “trabalhar o coração”. O coração é a fonte de toda ação humana. Todos os mestres religiosos constantemente nos chamam, quase de forma enfadonha, para que nos voltemos e purifiquemos os nossos corações. Os grandes sacerdotes Puritanos, por exemplo, mantiveram a atenção nisto. Em Mantendo o Coração, John Flavel, um puritano inglês do século 17 adverte que “a maior dificuldade na conversão é ganhar o coração para Deus; e a maior dificuldade após a conversão é manter o coração com Deus... Trabalhar o coração é um trabalho realmente difícil”.

Quando estamos trabalhando o nosso coração, as atitudes externas nunca são o centro da nossa atenção. Atitudes visíveis são o resultado natural de algo profundo, bem mais profundo.

A máxima do patriarca Actio “as atitudes seguem a essência” nos lembra que a nossa atitude está sempre em acordo com a realidade interna do nosso coração. Isto, naturalmente, não reduz as boas obras à insignificância, mas as tornam questões secundárias; efeitos, não causas. O significado principal é a nossa união vital com Deus, nossa nova criação em Cristo, nossa imersão no Espírito Santo. É essa vida que purifica o coração. Quando o ramo é perfeitamente unido à videira e recebe a sua vida da videira, o fruto espiritual é natural.

Por isso é que os filósofos éticos podiam dizer “a virtude é fácil”. Quando o coração está purificado pela ação do Espírito a coisa mais natural do mundo é a virtude. Para o puro de coração o vício é o que é difícil.

Não é uma coisa vã para nós retornarmos ao primeiro amor. É um ato de fé para pedir a Deus que sonde o nosso coração e nos tire de todo caminho mal (Salmos 139: 23,24). É um aspecto vital da salvação do Senhor.

Somos todos, cada um e todos nós, uma massa de motivos emaranhados: esperança e medo, fé e dúvidas, simplicidade e duplicidade, honestidade e falsidade, sinceridade e falsidade. Deus é o único que pode separar o verdadeiro do falso, o único que pode purificar as motivações do coração.

Mas Deus não vem sem ser convidado. Se alguns compartimentos do nosso coração nunca experimentaram o toque de cura de Deus, talvez seja porque não temos recebido bem o minucioso exame divino.

O mais importante, mais real e mais duradouro acontece nas profundezas do nosso coração. Este é um trabalho solitário e interno. Não pode ser visto por pessoa alguma, a não ser por nós mesmos. É um trabalho que somente Deus conhece. É o trabalho de purificação do coração, a conversão da alma, da transformação interior, da formação da vida.

Começa primeiro com nosso retorno à luz de Jesus. Para alguns, este é um inescrutável e lento voltar-se... voltar-se... até que nos voltemos completamente. Para outros é instantâneo e glorioso. Em ambos os casos nós estamos começando a confiar em Jesus, para aceitá-Lo como sendo a nossa Vida. Assim lemos sobre isso em João 3, somos nascidos do Céu. Nascer espiritualmente é um começo – um maravilhoso e glorioso começo. E não um final.

O trabalho de formação mais intenso é necessário antes de nos colocarmos diante do brilho do Céu. É necessário muito treinamento para sermos o tipo de pessoa segura e reinar tranquilamente com Deus.

Então, agora nós damos início a esse novo relacionamento. Como Pedro coloca em sua primeira carta, nós “temos nascido de novo, não de uma semente perecível, mas imperecível, vivendo e permanecendo na Palavra de Deus” (I Pedro 1: 23). Deus está vivo! Jesus é real e atuante em nossas pequenas vidas.

E então nós começamos a orar, para entrar numa comunicação interativa com Deus. No principio nossa oração é intranquila e hesitante. É uma alternação da nossa ida e volta, de nossa preocupação com a glória divina e com as tarefas mundanas de casa e do trabalho. Para trás e para frente. Para trás e para frente. E, frequentemente, a alternância é pior – muito pior – do que absolutamente não orar. Num momento nos são reveladas glorias divinas, no momento seguinte nossas mentes estão chafurdando na concupiscência da base dos nossos desejos.

Nossas vidas são fraturadas e fragmentadas. Como Thomas Keely coloca, nós estamos vivendo em “uma luta intolerável de agitação”. Nós sentimos a força de atração de muitas obrigações e tentamos cumpri-las todas. E estamos “infelizes, intranquilos, extenuados, oprimidos e tememos fracassar”. Mas, através do tempo e da experiência – às vezes muito tempo e muita experiência - Deus começa a nos dar um sossego surpreendente no Centro Divino. Nas profundezas do nosso ser, a alternância nos dá uma vida coesa intacta, de humilde adoração diante da viva presença de Deus.

Não se trata de êxtase, mas de serenidade, sem abalos, e firmeza de orientação da vida. Nas palavras de George Fox, nós nos tornamos homens e mulheres “estáveis”.

Nós começamos a desenvolver um hábito de orientação divina. Agora, isto não é perfeccionismo, mas o progresso de nossa vida com Deus. O trabalho interior da oração torna-se muito mais simples agora. Lentamente descobrimos pequenos reflexos de proteção celeste e os sopros de submissão são tudo o que é preciso para nos atrair para uma orientação habitual de nossos corações voltados para Deus. Mesmo sem saber nós nos habituamos com a presença de Deus. Momentos formais de oração nos ligam e aumentam a tendência de estabilidade de adoração tranqüila, que é a base dos nossos dias.

Por trás do primeiro plano da vida diária permanece a bagagem da orientação celestial. Esta é a formação de um coração diante de Deus. Para usar as palavras de Kelly, é “uma vida despreocupada de paz e poder. É simples. É sereno. É espantoso. É triunfante. É radiante. Não toma tempo algum, mas ocupa todo o nosso tempo”.

Como os novatos em Jesus estamos aprendendo, sempre aprendendo como viver bem; a amar a Deus bem; a amar nosso cônjuge bem; a criar nossos filhos bem; a amar nossos amigos e vizinhos – e até mesmo os nossos inimigos – bem. A estudar bem; a enfrentar as adversidades bem; a administrar nossos negócios e instituições financeiras bem; a formar uma vida em comunidade bem; a alcançar os marginalizados bem; e a morrer bem.

E, enquanto aprendemos como viver bem, compartilhamos com outros o que estamos aprendendo. Esta é a estrutura do amor para edificar o corpo de Cristo.

Nós não estamos sozinhos neste trabalho de reforma do coração. É imperativo que nos ajudemos uns aos outros de todas as maneiras que pudermos. E, em nossos dias, temos emergência de um exército espiritual sólido de guias espirituais treinados, que possam amorosamente estar lado a lado de pessoas preciosas, e ajudá-las a discernir como andar pela fé nas circunstâncias de suas próprias vidas.

Por favor, note que eu disse guias espirituais “treinados” e não guias espirituais “diplomados”.

Há uma idéia genuinamente ruim circulando nestes dias que, se nós tivermos um determinado numero de cursos e lermos um determinado numero de livros, estaremos prontos para sermos guias espirituais. Eu lamento; eu realmente gostaria que fosse tão simples assim. Mas não, nós estamos falando sobre treinamento de vida. E é apenas pelo treinamento da vida que veremos o desenvolvimento de um certo tipo de vida, uma vida de retidão, paz e alegria no Espírito Santo.

Isto é qualidade de vida – a habilidade para perdoar quando se está machucado, o desejo de orar –, o que estamos procurando nos guias espirituais treinados.

Temos uma dificuldade real aqui porque cada um pensa em transformar o mundo, mas onde estão aqueles que pensam em transformar a si mesmos?  As pessoas podem genuinamente querer serem boas, mas raramente estão preparadas para fazer o que é necessário para produzir uma vida de bondade que possa transformar a alma. A formação pessoal à imagem de Cristo é árdua e longa.

A comunhão agregando poder – Isto naturalmente leva à nossa segunda grande arena de trabalho para os anos vindouros: renovação congregacional. Se em nossas igrejas nós não trabalhamos arduamente pela formação espiritual, não conseguiremos pessoas espiritualmente formadas. Então esta é uma arena de trabalho vital, e eu estou falando de das congregações tradicionais e as recentes formas emergentes de nossa vida juntos.

No principio é importante que vejamos o contexto no qual trabalhamos.

Primeiro, nós temos em nossas igrejas a “doença da pressa”. Muitos do nosso povo são viciados em adrenalina e, em toda parte o espírito de nossos dias é de pular, de empurrar, de atropelar, de ruídos, de pressa e de multidões. Mas o trabalho de formação espiritual simplesmente não acontece com pressa.  Ele nunca é um ‘assunto rápido’. Paciência e cuidado com o tempo consumido são sempre as marcas de qualidade do trabalho de formação espiritual.

Outra situação contextual que enfrentamos é o fato de que agora temos uma indústria de entretenimento cristão que é disfarçada como adoração. Como nós comparecemos em reverência e temor diante do Santo de Israel, quando muitos de nossos cultos são focados em diversão? Eu não sei a resposta, mas é claramente uma das realidades de nossa vida congregacional.

Um terceiro assunto: nós estamos lidando com uma mentalidade consumista em toda parte que, simplesmente, domina o cenário religioso, pelo menos o norte-americano. É uma mentalidade que mantém o individual à frente e no centro: “Eu quero o que quero, quando quero e quanto quero”. Naturalmente o trabalho de formação nos ensina a dar as costas para as nossas vontades e focar necessidades reais, como a de anular o ego, tomar a nossa cruz e seguir arduamente Jesus.

Todas estas e outras coisas mais, tornam o trabalho de formação espiritual em uma congregação realmente complicado. Estou certo de que não tenho as respostas para essas questões complicadas. Mas é maravilhoso saber que ter as respostas não é tarefa nossa. Nossa tarefa é realizar o trabalho de formação espiritual, e fazer isto em uma congregação já configurada.

Primeiro, isto significa que queremos experiências profundas de comunhão através do poder da formação espiritual. A igreja é reformada e sempre está se reformando. E, se meu coração, alma, mente e espírito estão sendo reformados – se anseio conhecer Jesus, seguir Jesus, servir Jesus, ser formado à semelhança de Jesus – então sou poderosamente atraído na direção de quem e de todo aquele que está buscando conhecer Jesus, seguir Jesus, servir a Jesus e ser formado à imagem de Jesus. Uma pessoa cheia da beleza de Jesus tem comunhão adicionada ao poder. Outros são irresistivelmente atraídos na direção desta pessoa.

Segundo, vamos fazer tudo o que podemos para desenvolver a ecclesiola na Eclésia – “a pequena igreja dentro da Igreja”. A ecclesiola na Eclésia é um compromisso profundo com a vida do povo de Deus e não uma maneira sectária. Nenhuma separação. Nenhuma exclusão. Nenhuma formação nova de denominação ou igreja. Nós ficamos dentro das estruturas de igreja dadas e desenvolvemos pequenos centros de luz dentro dessas estruturas. Então nós deixamos a nossa luz brilhar!

Particularmente três expressões históricas da ecclesiola na Eclésia, valem a pena ser estudadas:

Philipp Jakob Spener (1635–1705) no século XVII

A Alemanha e sua escola pietatis
Considerado o pai do Pietismo, Spener passou seus dias praticando e ensinando sobre a conversão do coração e a santificação da vida. Aqueles que o ouviam eram tão tocados por suas pregações, que queriam mais instruções, e perguntavam se ele seria bondoso o suficiente para atendê-los. Spener começou a defender a escola pietatis com aquelas pessoas ávidas para seguir Jesus, primeiro em sua casa, depois em outras casas e, então em prédios públicos e assim por diante, com a intenção de instruir pessoas que estavam ansiosas para aprender a viver uma vida santa.

John Wesley (1703–1791) no século XVII

A Inglaterra e suas sociedades, encontros de classes e coligações.
Estes encontros eram uma maneira de dar ordem e disciplina aos novos convertidos. As sociedades tinham o propósito de comunhão, os encontros de classes eram para tratar de responsabilidades e as coligações tinham o propósito de amor e confissão mútua de pecados.

Hans Nielsen Hauge (1771–1824) no século XIX

A Noruega e a “missão interna”.
Houve um grande movimento de renovação na Noruega sob a liderança de Hauge, mas – e isto foi crucial – ele estimulava seus seguidores a permanecer na igreja Luterana da Noruega. Hauge os organizou em pequenas estruturas dentro daquelas igrejas e chamou seu trabalho de piedade e de formação de corações de “missão interna”.

Esta ecclesiola na Eclésia, este trabalho de formação espiritual, produz um certo tipo de comunhão, um certo tipo de comunidade. Isto produz uma unidade de coração, alma e mente, um vínculo que não pode ser quebrado – um milagre – abastecido de cuidado e compartilhamento da vida juntos que nos levará a enfrentar as circunstâncias mais difíceis.

E isto me leva à minha terceira sugestão para a formação espiritual da congregação: que nós aprendemos a sofrer juntos.

Eu creio que o nosso tempo de sofrimento está chegando. Muitos fatores levarão a isso. Por exemplo, a cultura geral de hostilidade para as coisas concernentes ao cristianismo está crescendo. Não devemos ficar surpresos ou mesmo tentar mudar isto. O que nós deveríamos estar fazendo é estar construindo uma vida comunitária sólida para que, quando o sofrimento chegar, nós não estejamos dispersos. Devemos ficar juntos, orar juntos e sofrer juntos independente do que vamos enfrentar. Sofrer juntos pode ser um bom modo que Deus usa para um novo ajuntamento do povo e Deus.

De volta ao mundo – Finalmente chegamos à discussão sobre a renovação cultural ou o que na teologia é chamado de “mandato cultural”. Posso apenas sugerir aqui com o que isto se parece.

Os mestres religiosos escreveram muito sobre o treinamento do coração em duas direções opostas: contemptus mundi, rápido desprendimento das ligações e ambições, e amor mundi, nosso ser arremessado para uma divina, porém dolorosa, compaixão pelo mundo.

No começo Deus arranca o mundo de nossos corações – comtemptus mundi. Aqui experimentamos um rompimento das correntes que nos atraem para posições proeminentes e de poder. Todos os nossos desejos de reconhecimento social, para ter nosso nome em evidência, começam a parecer fracos e superficiais. Aprendemos a deixar todo o controle, toda a administração. Nós vivemos livre e alegremente sem enganos.

E, então, quando nos libertamos de tudo isso, Deus lança o mundo de volta ao nosso coração – amor mundi – onde nós e Deus, juntos, tomamos o mundo em infinita ternura e amor. Nós aprofundamos a nossa compaixão pelos feridos, pelos arruinados, pelos despossuídos.

Nós sofremos, oramos e trabalhamos por outros de uma maneira diferente, de uma forma abnegada, cheia de alegria. Nosso coração fica estendido em direção aos marginalizados. Nosso coração fica voltado para todas as pessoas, para toda a criação.

Foi o amor mundi que atirava Patrick de volta à Irlanda para responder à sua pobreza espiritual. Foi o amor mundi que impulsionou Francisco de Assis para o seu ministério mundial de compaixão por todas as pessoas, por todos os animais, por toda a criação. Foi o que levou Elizabeth Fry às portas do inferno da prisão de Newgate e induziu William Wilberforce a trabalhar a sua vida inteira pela abolição do comércio escravo. Isto enviou Padre Damião a viver, sofrer, e morrer entre os leprosos de Molokai e impulsionou Madre Teresa a ministrar entre os mais pobres entre os pobres da Índia e do mundo todo.

É o amor mundi que compele milhões de pessoas comuns como você e eu a ministrar vida no nome bom de Cristo aos nossos vizinhos.

Richard J. Foster é autor de muitos livros, o mais recente é “Life With God”. Este artigo é uma versão condensada e editada de uma palestra dada em uma conferência pela ocasião do 30º Aniversário de “Celebration of Discipline” (Celebração da Disciplina).

APENAS UMA QUESTÃO HISTÓRICA

Sempre nesse tempo de celebrações na sociedade e que nós cristãos também compartilhamos reflito entre Páscoa, uma celebração com origem no céu, datada, real e que nós, ressalvadas as exceções não celebramos. 
O Natal tão exaustivamente discutido ao longo da última semana e o Ano Novo, pelo que sei celebrado entre nós sem exceções.
Digo sem exceções pois não tenho conhecimento de nenhuma igreja ou congregação que essa noite mesmo não sendo dia regular de culto não tenha suas portas abertas para celebração até que relógio e calendário marquem nova hora e data. Caso não esteja correto quanto ao "todos" já me redimo antecipadamente.

SENDO QUE CRER TAMBÉM É PENSAR...
Janeiro é o primeiro mês do ano no calendário juliano e gregoriano. É composto por 31 dias. O nome provém do latim Ianuarius, décimo-primeiro mês do calendário de Numa Pompílio, o qual era uma homenagem a Jano. 

A comemoração ocidental, isso é, a nossa, tem origem num decreto do imperador romano Júlio César, que fixou o 1 de janeiro como o Dia do Ano-Novo em 46 a.C.

JANEIRO POR QUÊ?
Os romanos dedicavam esse dia a Jano, o deus dos portões. O mês de Janeiro deriva do nome de Jano, que tinha duas faces (sendo, portanto, bifronte) - uma voltada para frente (visualizando o futuro) e a outra para trás (visualizando o passado). O povo romano era politeísta e Jano era um entre os muitos deuses do seu panteão.
Não existe nenhum relato de que o povo judeu dessa mesma época tenha comemorado esse ano-novo, nem que tampouco que os primeiros cristãos o tenham feito.

É isso. 

QUE BOM QUE É NATAL, DE NOVO!!

O que é muito legal no Natal são as memórias construídas ao longo da vida enquanto os filhos crescem. Quem hoje tem filhos pequenos ou se os já teve sabe bem do que falamos. 

A expectativa dos nossos filhos quando pequenos era muito divertida, na ansiedade pela informação, um fala "painho o que vou ganhar de Natal" outra diz "eu quero esse ou aquele brinquedo" era o que sempre acontecia todos os anos, e hoje, mesmo adultos, ainda acontece! 

Imagine você num tempo tão especial como esse oferecer como resposta sobre o Natal aos seus pequenos um tratado teológico sobre se o SENHOR nasceu em dezembro ou se mais provavelmente em abril quando acontece a Páscoa judaica - afinal todo cordeiro sacrificado na Páscoa sempre nascia na Páscoa, é o que consta nas Escrituras Sagradas.

Alguns argumentam "O SENHOR não mandou festejar seu aniversário". Claro! É óbvio que não mandaria! Pessoas amadas não precisam promover o próprio aniversário, é seus amigos que o fazem, que o digam os sábios do oriente. 

Feliz Natal!! 

Robespierre & Ederylda Machado

SOBRE OUTROS E SOBRE NÓS...

Orem pelos reis e por todos os outros que têm autoridade, para que possamos viver uma vida calma e pacífica, com dedicação a Deus e respeito aos outros. Isso é bom, e Deus, o nosso Salvador, gosta disso 1Tm 2.2 e 3 (NTLH).

Diante da intensa e deslavada corrupção e pecado que a nação e milhares dos seus líderes políticos, sociais, eclesiais - que são as principais colunas do povo - estão imersos me inquieta a ordem do SENHOR pois a minha parte Zelote, Boanerges e Finéas, filho de Eleazar, se agita exigindo mais e imediatas ações. Então, quando sou invadido por esse sentimento logo tomo o caminho de Asafe e tudo fica bem; logo tudo estará como deve ser.

Logo o SENHOR fará justiça, sim, logo fará. Tudo ficará bem pois sei que Ele tem o controle de tudo, inclusive daqueles que não mais o temem nem se apavoram em pecar diante D'Ele, o criador e sustentador de tudo.

Impossível calar, diariamente vejo no mundo homens e mulheres apavorados, aterrorizados só em pensar que terão que estar diante de DEUS. E nós o desprezamos, cuspimos em seu rosto com os nossos pecados pessoais e institucionais. 

Declaramos sem nenhum pudor para o universo inteiro saber, sim declaramos com as nossas ações que não o tememos. Embora não o admitamos pecamos e com os nossos atos como Faraó dizemos: Quem é o SENHOR?

Às vezes reflito, imaginando pensar em secreto, mas glória a DEUS que é impossível pensar ou agir secretamente, sim, fico a imaginar que se Ele não tivesse dito as palavras que dão base para esse post... Mas, glória ao SENHOR, porque Ele disse!!!

Paz e bençãos!

SOBRE O SONO

Dormir é um momento reconfortante mas não para todos.

Muitos transmutaram em amargo aquilo que as Escrituras Sagradas afirmam ser doce.

Mergulhados em toneladas de hipinóticos estes tentam inutilmente conciliar os reclames de uma consciência inaplacada buscando refúgio onde não encontrarão.

Isso nos remete a milenar e sagrada sentença, o profeta numa lamentação assevera "De que se queixa o homem..."

Doce é o sono nele suprimentos para a existência são acrescidos à aquele que dorme, é o que diz a Bíblia; certamente, é fato, se o que dorme não está maleado em nódoas que não procedem do céu.

Doce é o sono que pode conciliar-se com um simples "Venha o teu reino" repetido infinitas vezes ao longo da jornada sem medo e pavor que Ele de fato venha.

Doce é o sono de quem não tem débitos, secretos aos homens mas escancarados diante de quem o salmista em agonia afirma que não há onde possa ir sem ser por Ele encontrado, inclusive no sono.

Boa noite!

O valioso tempo dos maduros

Encontro das águas entre o Rio Negro e o Solimões 
por Ricardo Gondim
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. 
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.  

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa.
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.

Quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.

SOBRE SAUDADE - Em algum lugar foi dito: "Saudade, saudade é o amor que fica"


Modalidade e Sodalidade

Sobre Modalidade e Sodalidade


No Brasil e em grande parte do mundo cristão, quase não se questiona a estrutura da igreja local, representada principalmente pelas congregações denominacionais. Para nós, igreja é sinônimo de instituição. Isso faz com que as estruturas missionárias não ligadas a uma denominação específica ou interdenominacionais sejam vistas como paraeclesiásticas –próximas da igreja, mas não parte dela. Daí conclui-se: se as congregações fossem “mais missionárias”, não precisaríamos das agências de missões.

No entanto, estudiosos que dedicaram-se à análise das formas como a igreja se apresenta ao longo de sua história identificaram duas estruturas diferentes e complementares; ambas compondo igualmente o corpo de Cristo. No Novo Testamento, vemos as igrejas locais, congregacionais –a modalidade– e os grupos missionários, especialmente o de Paulo – a sodalidade.

De acordo com o antropólogo e missiólogo Dr. Ralph D. Winter, as modalidades são “comunidades estruturadas nas quais não há distinção de sexo ou idade”, ou seja, fazem parte dela igualmente “velho e jovem, homem e mulher”; “é um organismo biologicamente perpetuável”. Entre as funções da modalidade estão: congregar, cuidar, nutrir os crentes locais e atuar no contexto social à sua volta. Por sua vez, as sodalidades são estruturas organizadas em torno de alvos específicos e de um senso comum de missão e visão. Exigem de seus membros uma segunda decisão, baseada em um chamado e vocação, e também o compromisso com um estilo de vida alternativo visando o alcance dos alvos, vivência da missão e implementação da visão. 

Entretanto, o nível de compromisso com o relacionamento com Deus e com incluir o próximo nesse relacionamento deve ser o mesmo em ambas as estruturas.

Dentro destas características, temos as modalidades sendo representadas ao longo da história pelas sinagogas cristãs dos primeiros séculos do Cristianismo, pelas paróquias e dioceses da igreja romana e, mais recentemente, pelas congregações denominacionais evangélicas. As sodalidades, por sua vez, são representadas pelos grupos missionários como o de Paulo, pelas ordens religiosas católicas, e pelas juntas e agências missionárias da Era Moderna.

Uma importante característica da sodalidade é sua autonomia. Observando a relação do grupo missionário de Paulo com a igreja de Antioquia, a qual o liberou para o trabalho que o Espírito Santo lhe havia enviado a fazer [Atos 13:1-4], podemos observar que Paulo era autônomo em relação a ela na tomada de suas decisões, mas totalmente submisso ao Espírito [Atos 16:6-10]. No entanto, não houve um rompimento de Paulo com esta igreja; pelo contrário, apesar de não ser governado por ela, Paulo reportou-se, prestou contas de seu ministério à igreja em Antioquia e a via como um lugar para onde podia retornar de suas viagens [Atos 14:26-28].

Há de se diferenciar aqui autonomia de independência. A sodalidade de Paulo era autônoma em relação à igreja que o liberou, ou seja, possuía capacidade de administrar-se livremente de acordo com as necessidades da missão a ser cumprida, mas não era independente no sentido de ausência de relações. Na verdade, este relacionamento entre modalidade e sodalidade é “tão fundamental” que dele provém grande parte dos escritos do Novo Testamento –as cartas enviadas de membros das sodalidades às igrejas locais. Vemos também que os membros da sodalidade são comumente provenientes da modalidade.

Enfim, há uma relação de interdependência entre as estruturas e ambas são legítimas na composição do corpo de Cristo. Funções diferentes, mas igual importância. Quando entendermos e vivermos isto, seremos realmente eficientes no cumprimento da grande comissão, pois assim refletiremos a união que Jesus mencionou como a característica pela qual o mundo reconheceria que Deus o enviou [João 17:21]. Duas estruturas, mas um só corpo.

Identificação, conceito e justiça

O zelo dos reformadores protestantes em retomar o Cristianismo em sua essência e criar uma identidade cristã fora do Catolicismo atropelou tradições cristãs que remetem historicamente à herança abraâmica. Com a privatização da Igreja no século 18, o Cristianismo moderno se distanciou ainda mais dessas heranças. O cristão se tornou um indivíduo afastado do meio, inerte em atividades elevadas ao estatuto de sagradas.

No final dos anos 1960, os frades dominicanos, envolvidos na luta contra a ditadura militar no Brasil, foram expressão da mudança de rumos da organização popular na sociedade brasileira. O Brasil vivia dois conflitos: a economia em mãos estrangeiras e o Estado em poder de autocratas militares. Partindo de uma nova maneira de ler a Bíblia e da preocupação com o que significaria ser cristão naquela conjuntura, abandonando a antiga dualidade entre fé e vida, a ordem dos dominicanos se tornou o embrião dos movimentos populares.

Durante o golpe militar, esses movimentos foram vistos como laboratórios de idéias comunistas e seus participantes perseguidos pelo regime autoritário; no entanto, a população encontrou entre eles a sua voz. “Quando dou pão aos pobres, chamam-me de santo, quando pergunto pelas causas da pobreza, me chamam de comunista”, diz Dom Hélder Câmara.

Se com a supressão dos direitos constitucionais, perseguição política, prisão e tortura aos opositores, censura aos meios de comunicação, as pessoas imergiram em um universo despolitizado, a ordem dos frades fazia o caminho inverso. Mobilizaram-se para promover novos espaços públicos, amparar presos políticos e convergir grupos que, por ideologia, se posicionavam em resistência às injustiças contra o povo.

A desigualdade social, que ao longo da história é denunciada por diversos grupos, é costumeiramente fruto de mudanças nas ênfases econômicas e no modo de produção. Em Israel, por volta do século 8 a.C., a economia da nação, a exemplo do modo fenício, investiu no incremento do comércio em detrimento da agricultura; o que resultou, como afirma Toynbee, em “uma alteração quase revolucionária na distribuição da riqueza, com desvantagem para a maioria pobre da população.”

Nesse período reinava sobre Israel Jeroboão II. Seu reinado foi marcado por um período de expansão territorial e prosperidade. Mesmo com o cisma ocorrido anteriormente, na morte de Salomão –que dividiu a nação em dois reinos– Israel vivenciou no século 8 a.C. um período de estabilidade política e prosperidade econômica com a tomada da Síria pela Assíria, o que possibilitou a expansão territorial por meio da retomada das terras ocupadas pelo reino sírio. Todavia, o bem-estar econômico e político ocultava uma decomposição social. O contraste entre ricos e pobres denunciava injustiças e degradação moral.

Esses fatos são evidenciados nos escritos do profeta Amós, presentes na composição bíblica. Amós, contemporâneo de Jeroboão II, relata a sociedade da qual faz parte. A fluência e a construção de seu texto revela um homem em contato direto com as questões do seu tempo em matéria de sociedade, política e economia.

A palavra profeta chega a nós através do vocábulo hebraico nabi, ou “aquele que proclama”; um conceito diferente do utilizado hoje, que relaciona a palavra à predição. Dessa forma, o trabalho de Amós era o de anunciar a Israel o castigo que viria como conseqüência de suas práticas de injustiça. Fazendo-se uma voz contra injustiça, Amós denunciava as práticas sociais que iam contra o conceito de justiça presente na religião e na cultura hebraica.

A essência da ação de Amós se concentra na sua compreensão da idéia de Deus. Para ele, todo entendimento de Deus estava baseado no pressuposto de justiça. A moralidade e a justiça eram centrais em Deus. Dessa forma, ele apresenta em seu discurso a implantação da justiça como única via de remissão, colocando o homem como agente direto de transformação e responsável pelo destino da sociedade. Amós posiciona o homem como um agente social.

O caráter social da atuação dos profetas em Israel está relacionado à influência que eles representavam no campo das idéias. Sua maior responsabilidade não estava em estruturar um plano de reforma social propriamente dito, ou uma mobilização social em termos revolucionários, mas em produzir conceitos a serem lançados sobre a sociedade, que modificariam tanto o pensamento como a prática social. O filósofo José Luís Sicre, em sua obra Profetismo em Israel, aponta o caráter social da atuação dos profetas: “Um dos aspectos mais célebres e importantes da mensagem profética é constituído pela sua denúncia dos problemas sociais e pelo seu esforço em prol de uma sociedade mais justa.”

Na modernidade, com o apogeu do iluminismo, as sociedades ocidentais se empenharam em dissociar a religião das questões sociais humanas; retomando o conceito grego que diferenciava os espectros humanos entre mythos e logos, em que o mythos englobaria exclusivamente as questões intemporais, religiosas e de transcendência.

Desde então, a religião tem sido compreendida como responsável apenas pela espiritualidade do homem, não comunicando em nada com os enfrentamentos da sociedade em geral. Parecendo abusiva e fora de jurisdição qualquer crítica social ou atuação relevante, as sodalidades hoje enfrentam o dilema de responder a questões sociais em um mundo que não as compreende.

Na prática, as sodalidades religiosas buscam responder a três necessidades: identificação, conceito e justiça social. Sociologicamente, representam a capacidade humana de construir grupos com um propósito específico. Em Roma, por volta do século 7 a.C., o termo sodalitas englobava dois agrupamentos sociais: um político, outro religioso. As sodalidades políticas reuniam bens e habilidades de pessoas abastadas para se promover, enquanto as religiosas convergiam recursos e talentos para se ocupar das questões que envolviam a complexidade humana, seja em aspectos de moral, transcendência ou vivência.

Com a decadência do Império Romano, o conceito de sodalidade política se esvaneceu, permanecendo exclusivamente o de caráter religioso. Hoje, as associações que ousam se afastar do conceito iluminista sobre a prática religiosa para convergir habilidade, conhecimento e know-how estão fadadas a serem desacreditadas em sua finalidade. Na pós-modernidade esta prática parece ser legítima apenas às instituições do mercado. 

Fonte: Abrangente reflexão produzida por missionários de JOCUM sobre o conceito de Modalidade e Sodalidade. 

A vida devocional do cristão

A vida devocional

Encontramos o Senhor mais facilmente quando descemos, e não quando subimos.

Um dos pilares da experiência cristã é a vida devocional, isto é, o cultivo de uma relação de intimidade com Deus através da leitura bíblica e da oração. Na recomendação de Jesus Cristo, a vida devocional acontece no quarto de portas fechadas, no secreto, longe do público e das distrações.

A vida devocional é um privilégio extraordinário para os que creem. Na antiga aliança, só o sumo sacerdote, uma vez por ano, tinha acesso à presença de Deus no Santo dos Santos, no templo de Jerusalém. Porém, no momento em que Jesus Cristo morre na cruz, o Evangelho relata que o véu que dava acesso ao Senhor foi rasgado de alto a baixo – e lemos no livro de Hebreus que, agora, podemos entrar confiadamente na sala do trono pelo novo e vivo caminho no sangue de Cristo.

Deus não está mais no templo de Jerusalém, edificação feita por mãos humanas. Agora, ele habita no coração do homem e da mulher que nele creem e, assim, nosso corpo se tornou o templo do Espírito Santo. Este é o mistério de Cristo em nós; assim foi abolido o sacerdócio como privilégio dos levitas e, no Filho de Deus, o sacerdócio se tornou universal e inclui todos os crentes. Apesar disso, o que temos visto na Igreja é um retrocesso, pois o lugar do encontro com Deus se tornou o templo no domingo; a adoração é intermediada pela banda e pelo dirigente do louvor, e Deus fala através de pregadores ungidos. Além disso, levamos nossas orações para intercessores que, supostamente, têm poder.

O resultado é uma geração de crentes que dependem de intermediários na sua relação com Deus. Ao invés da leitura bíblica pessoal, ouvimos sermões, e no lugar da oração pessoal, aquela que se desnuda diante do Senhor, fazemos nossos pedidos na reunião de oração. É por isso que existem tão pouco santos e profetas entre nós, e tantos crentes imaturos e instáveis. Santo não é aquele que não peca mais, mas o que sabe que é um grande pecador e vive quebrantado e na dependência do Espírito Santo. E profeta não é aquele que adivinha o futuro, mas denuncia o mal e anuncia o juízo, sem preocupação em agradar aos outros.

A vida devocional ficou em segundo plano, e sem uma relação pessoal com Deus a ênfase recai na vida comunitária, no programa, no culto – em parte porque nos tornamos pessoas inquietas e agitadas que não conseguem parar, e em parte porque achamos que Deus só fala conosco através de pastores. Mas também negligenciamos a vida devocional porque achamos improdutiva e perda de tempo e buscamos experiências espirituais eufóricas e entregamo-nos ao ativismo religioso.

Sabemos que Deus habita o mais alto e santo lugar nos céus, mas também habita o coração do contrito e do abatido de espírito. Procuramos o Altíssimo nos mais altos céus – mas ele está muito mais perto de nós, no nosso coração. Encontramos o Senhor mais facilmente quando descemos, e não quando subimos; descemos ao nosso coração para encontrá-lo por trás da nossa maldade e da nossa agitação. 

A casa do Pai é o nosso próprio coração: por isso, voltar para à casa do Pai é retornar ao nosso próprio coração. Ali, ouvimos sua palavra e lhe respondemos com nossas orações. Esta é uma descrição da vida devocional. Em outras palavras, podemos dizer que é o cultivo de uma amizade com Deus no recôndito do nosso coração. Nossa vida se torna, então, um caminho com Cristo até Cristo, um caminho em direção ao nosso próprio coração, onde o Senhor nos aguarda apesar das nossas agitações e preocupações. Aquietamo-nos para encontrá-lo e, quando o encontramos, estamos prontos para encontrar outros.

Sabemos da importância dos frutos na vida cristã: fruto de arrependimento, fruto do Espírito e fruto de boas obras. Todavia, a parte mais importante de uma árvore é a raiz. A árvore pode ter um tronco magnífico e folhas viçosas, mas se a raiz estiver afetada, seus frutos serão ruins e ela pode até morrer. Pois a vida devocional é raiz que precisa estar coberta, no escuro, nas profundezas. Se ela é saudável, alimentando-se da seiva viva e bebendo dos mananciais de águas puras, então não precisamos nos preocupar com os frutos – eles, certamente, virão e serão bons.

Precisamos resgatar o ensino e a prática do sacerdócio universal dos crentes e o vinculo de intimidade com Deus através da leitura bíblica e da oração no secreto.

Fonte: Cristianismo Hoje

UMA RÁPIDA EXEGESE NO LIVRO DE MALAQUIAS

I – INTRODUÇÃO

O Livro de Malaquias, no tradicional cânon judaico, ocupa o último lugar entre os escritos dos chamados profetas menores, tendo sido escrito após o exílio babilônico, quando o Templo de Jerusalém já havia sido reedificado, pois há claras indicações que os sacrifícios e festas achavam-se plenamente restaurados. O Templo anterior tinha sido incendiado por Nebuzaradão, general de Nabucodonosor (II Reis 25:8 e 9).

O profeta Malaquias era um judeu de firmes convicções, de rigorosa integridade e de intensa devoção a Deus. Ele era contemporâneo de Neemias (comparar Malaquias 2:8 com Neemias 13:29 e Malaquias 2:10-16 com Neemias 13:23) e de Esdras (comparar Malaquias 2:11 com Esdras 9:1 e 2). Em seus escritos há uma repreensão severa contra os sacerdotes que se converteram em pedras de tropeço em vez de serem líderes espirituais para o povo. 

Embora o Livro tenha apenas quatro capítulos, infelizmente poucos são os que verdadeiramente têm se debruçado para entender todo o seu contexto. Esta é a razão porque há tantas interpretações equivocadas e tendenciosas quanto ao texto de Malaquias 3:8-10. Quando Deus disse: “Todavia vós Me roubais... nos dízimos e nas ofertas alçadas” (Malaquias 3:8), Ele estava direcionando estas palavras a quem? Esta questão deve ser analisada em todo o seu contexto histórico à luz da Palavra de Deus.

II – A QUEM SE DESTINAVA A MENSAGEM?

Na parte introdutória do livro é mencionado que a mensagem de Deus foi dada a “Israel, por intermédio de Malaquias.” Malaquias 1:1. 

Após o exílio babilônico, a decadência de Israel em termos espirituais era notória. Esta decadência teve como causa a corrupção moral e doutrinária de seus líderes religiosos. A exposição dos fatos no livro de Malaquias, indica que a principal queixa de Deus foi contra os sacerdotes, claramente explicitada a partir do verso 6 “O filho honra o pai, e o servo ao seu amo; se Eu, pois, sou pai, onde está a Minha honra? E se Eu sou amo, onde está o temor de Mim? Diz o Senhor dos exércitos a VÓS, Ó SACERDOTES, que desprezais o Meu nome. E vós dizeis: Em que temos nós desprezado o Teu nome?” Malaquias 1:6.

O texto indica de que houve um desvio de conduta por parte dos sacerdotes, sendo culpados de desprezarem o nome de Deus. Eles perderam o relacionamento pessoal com Ele. Os sacerdotes do templo, em desobediência à lei que regulamentava as atividades do Templo, indevidamente recolhiam todas as ofertas do povo, nada deixando para os levitas, os órfãos, as viúvas e estrangeiros. Os sacerdotes transformaram-se em profissionais da religião e totalmente divorciados de Deus.

As passagens seguintes fornecem maiores detalhes, especificando os pecados cometidos pelos sacerdotes, não todos, mas aqueles que eram arrogantes e desonestos. Eles foram culpados de profanarem o nome de Deus e de oferecerem no altar sagrado ofertas inaceitáveis, tais como animais cegos, coxos e enfermos (Malaquias 1:7-14). Deus fala especificamente aos sacerdotes e não ao povo, pois eram os sacerdotes que acendiam o fogo no altar (Malaquias 1:10). 

O capítulo 2 de Malaquias prossegue com a condenação de Deus aos SACERDOTES:

“Agora, ó SACERDOTES, este mandamento é para VÓS.” Malaquias 2:1. 

Após descrever alguns pecados deles (Malaquias 1:6-14), Deus agora descreve o seu castigo: “Se não ouvirdes, e se não propuserdes no vosso coração dar honra ao Meu nome, diz o Senhor dos exércitos, enviarei a maldição contra vós, e amaldiçoarei as vossas bênçãos; e já as tenho amaldiçoado, porque não aplicais a isso o vosso coração. Eis que vos reprovarei a posteridade, e espalharei sobre os vossos rostos o esterco, sim, o esterco dos vossos sacrifícios; e juntamente com este sereis levados para fora.” Malaquias 2:2 e 3.

Não se deve esquecer que a aliança de Deus com Israel incluía a Sua específica aliança com os sacerdotes da tribo de Levi. No entanto, Deus disse que os SACERDOTES corromperam o pacto de Levi: “Então sabereis que Eu vos enviei este mandamento, para que o Meu pacto fosse com Levi, diz o Senhor dos exércitos. Meu pacto com ele foi de vida e de paz e Eu lhas dei para que Me temesse; e ele Me temeu, e assombrou-se por causa do Meu nome. A lei da verdade esteve na sua boca, e a impiedade não se achou nos seus lábios; ele andou comigo em paz e em retidão, e da iniqüidade apartou a muitos. Pois os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar a instrução, por que ele é o mensageiro do Senhor dos exércitos. Mas vós vos desviastes do caminho; a muitos fizestes tropeçar na lei; corrompestes o pacto de Levi, diz o Senhor dos exércitos.” Malaquias 2:4-8.

Como conseqüência, Deus os fez “desprezíveis e indignos diante de todo o povo,...” (Malaquias 2:9). 

Deus continua falando aos SACERDOTES em Malaquias.2:10-17, condenando-os por causa dos casamentos com mulheres estrangeiras. Deus censurou a hipocrisia dos sacerdotes, por continuarem a oferecer sacrifícios, enquanto viviam em rebelião. Esta conclusão é obvia, pois Malaquias 2:13 tem uma forte relevância contra os sacerdotes, por terem sido eles os que literalmente choravam sobre o altar. O povo de Judá e Israel não tinha acesso direto ao altar. 

Com relação aos casamentos mistos com mulheres pagãs, a mesma situação ocorreu no tempo de Neemias, ocasião em que Deus sentia-Se muito desgostoso com os sacerdotes (Neemias 13:27-30).

Em Malaquias 3:1-5 a repreensão de Deus é novamente dirigida aos SACERDOTES. Nestes textos, ao anunciar o envio do “mensageiro”, uma profecia cumprida mais tarde na pessoa de João Batista, que prepararia o caminho do Messias, Deus anunciou que o juízo começaria pelo “Seu Templo”, para purificar “os filhos de Levi”. Esta associação de palavras: “templo”, “filhos de Levi”, tudo tem a ver com o sacerdócio levítico. Com a centralização de poder por parte dos sacerdotes, as normas de Deus foram desvirtuadas, desobedecidas e as coisas santas foram profanadas. Como conseqüência, os sacerdotes, detentores de todo o poder, passaram a oprimir as viúvas, os órfãos e os estrangeiros, por não repassarem os dízimos que lhes eram devidos. Estes dízimos não eram em dinheiro, mas em forma de alimentos. Esta prática perversa já tinha sido denunciada por Deus através o profeta Ezequiel:

“Os seus sacerdotes transgridem a Minha lei, e profanam as Minhas cousas santas; entre o santo e o profano não fazem diferença; nem discernem o impuro do puro; e de Meus sábados escondem os seus olhos, e assim sou profanado no meio deles. Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa, para derramarem o sangue, para destruírem as almas, para seguirem a avareza. E os seus profetas têm feito para eles reboco de cal não adubada, vendo vaidade, e predizendo-lhes mentira, dizendo: Assim diz o Senhor Jeová; sem que o Senhor tivesse falado. Ao povo da terra oprimem gravemente, e andam roubando, e fazem violência ao aflito e ao necessitado, e ao estrangeiro oprimem sem razão.” Ezequiel 22:26-29.

O texto acima foi escrito muitos anos antes de Malaquias. Já naquela época Deus tinha transmitido mensagens duras contra os sacerdotes, condenando as suas más práticas. Indiscutivelmente foram eles os opressores do povo e foram eles também os que roubavam e agiam com violência contra os aflitos e necessitados. 

Assim, respeitando o contexto, é justo concluir que o pronome “vós” mencionado em Malaquias 3:7-10 refere-se aos SACERDOTES desonestos. Esses sacerdotes eram culpados de roubar a Deus e por isso Ele os repreendeu severamente, conforme Malaquias 1:6 e 2:9. Deus estava cansado da desonestidade deles. Por estas razões as maldições estavam sendo direcionadas a eles (Malaquias 1:14, 2:2 e 3:9). 

III – UM HISTÓRICO DE PERVERSÃO DO SACERDÓCIO LEVÍTICO

O sistema sacrifical concedia aos sacerdotes excelente oportunidade de ensinar o plano da salvação aos transgressores. No entanto, os rituais celebrados pelos sacerdotes no santuário foram pervertidos. O sacrifício de animais tornou-se uma fonte de renda para eles. Alguns dos sacerdotes corruptos viram perfeitamente que quanto mais o povo pecasse e quanto mais trouxesse ofertas pelo pecado e ofensas, tanto maior porção lhes caberia. 

Chegaram ao ponto de animar o povo a pecar. Está escrito acerca dos sacerdotes corruptos: “Alimentam-se do pecado do Meu povo, e da maldade dele têm desejo ardente.” Oséias 4:8. Afirma este texto que os sacerdotes, ao invés de admoestar o povo e insistir em que deixasse o pecado, tinham “desejo ardente” de sua maldade, e almejavam que pecasse outra vez e voltasse com outra oferta pelo pecado. 

A degradação do sacerdócio ocorreu já na primeira fase de sua existência (I Samuel 2:13-16). Deus ordenara que a gordura fosse queimada sobre o altar, e que se a carne fosse comida, devia ser fervida. Os sacerdotes, contudo, desejavam a sua porção crua com a gordura, de modo que a pudessem assar. Deixara de ser uma oferta sacrifical, para tornar-se, em vez disso, uma festa de glutonaria. A Palavra de Deus diz que “era, pois, muito grande o pecado destes mancebos perante o Senhor, porquanto os homens desprezavam a oferta do Senhor.” I Samuel 2:17.

Com o passar do tempo a corrupção se generalizou a tal ponto que o cargo do sumo sacerdote revestiu-se de caráter político, ao ser ele designado pelo governo. Os lucros das grandes festas eram repartidos com os oficiais superiores. Todo o plano de Deus foi corrompido pelos sacerdotes. Por isso a expressão de Jesus: “A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de ladrões.” Mateus 21:13.

Muitos dos sacerdotes possuíam um amargo ressentimento contra os profetas. Eles odiavam os homens que eram enviados para repreendê-los. Muitas das perseguições movidas contra os profetas no Antigo Testamento foram chefiadas ou instigadas pelos sacerdotes. Os profetas foram por eles perseguidos, torturados e mortos. 

Os oponentes de Cristo eram sempre os sacerdotes, os escribas e os fariseus. Quando o Senhor Jesus foi apresentado perante Pilatos, foram os sacerdotes os que Lhe acusaram (Marcos 15:3). Oferecendo-Se sobre o Calvário, tornou sem valor a partir de então o sistema sacrifical. Pessoalmente, durante o Seu ministério, Cristo não ofereceu sacrifício algum, porque Ele não pecou, e, ensinando os homens a não pecar, feriu o cerne da perversão sacerdotal. 

Não se deve pensar, todavia, que todos os sacerdotes eram ímpios. Muitos homens fiéis podiam ser contados entre eles. 

IV - CONCLUSÃO

Os sacerdotes foram incapazes de discernir o profundo significado espiritual do seu serviço simbólico. As gloriosas verdades, que estavam claramente delineadas neste serviço sagrado, foram obscurecidas, por causa da sua desobediência aos preceitos de Deus. De uma maneira solene os sacerdotes impenitentes foram advertidos sobre o dia do julgamento por vir e para eles foi endereçado o seguinte convite de Deus: “Tornai vós para Mim e Eu tornarei para vós.” Malaquias 3:7.

Ao rejeitarem este afetuoso convite de Deus, eles selaram o seu destino. Mais tarde, nas proximidades do fim do ministério terrestre de Cristo, os principais sacerdotes ouviram do Mestre a parábola da vinha (Mateus 21:33-46). Havendo retratado ante os sacerdotes o seu ato final de impiedade, Cristo dirige-lhes a pergunta: “Quando, pois, vier o Senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?” Os sacerdotes haviam acompanhado a narrativa de Jesus com profundo interesse. Sem considerar a relação que havia do assunto para com eles mesmos, a resposta deles foi a seguinte: “Fará perecer miseravelmente a esses maus, e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe entreguem os frutos.” Inadvertidamente haviam eles pronunciado sua própria condenação. Com a morte de Cristo o sacerdócio levítico foi extinto e no ano 70 d.C. o Templo de Jerusalém foi destruído pelos romanos. 

Desde então Deus desejou atuar em cada indivíduo, transformando-o em um templo Seu, no qual pudesse ser exercido um sacerdócio santo e aceitável: 

“Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?” I Coríntios 6:19. 

“Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.” I Pedro 2:5.

“Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes dAquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz.” I Pedro, 2:9.

Nunca esqueçamos que Deus é honrado com a pureza do coração com que amamos, com o tesouro com que enriquecemos os necessitados e com o esplendor do nosso temor e dedicação.

Fonte: verdadeemfoco.com.br

Pequena Biografia de Charles T. Studd


PARTIDA PARA ÁFRICA



Em 1908 estava em Liverpool quando leu esta  notícia estranha que prendeu de imediato a sua atenção e o seu sentido de humor. "Canibais querem missionários". "Karl Kumm tinha atravessado África e contou as suas experiências. Disse que no meio do continente havia numerosas tribos que nunca tinham ouvido a história de Jesus Cristo. Disse-nos que os exploradores tinham estado naquelas regiões, e grandes caçadores, Árabes, e comerciantes, oficiais e cientistas Europeus, mas nenhum Cristão tinha ido falar do Senhor Jesus. A vergonha invadiu-me a alma. Eu disse, 'Porque é que os Cristãos não têm ido?' Deus replicou, 'Porque é que não vais tu?' 'Os médicos não o permitem', disse eu. A resposta veio pronta, 'Não sou Eu o Bom Médico? Não posso Eu cuidar de ti? Não posso Eu guardar-te ali?' Não havia desculpas, tinha de ser."

A propósito dos que o procuravam demover devido à debilidade da sua saúde, ele disse, "O amor em demasia algumas vezes é tão pernicioso quanto o ódio". Como jovem abriu mão da sua carreira, na China abriu mão da sua fortuna, agora abria mão da sua vida. Apostou tudo. Um jogador para Deus. Uniu-se às fileiras dos grandes jogadores da fé, Abraão, Moisés, etc., em Hebreus 11, e à verdadeira sucessão apostólica, «homens que já expuseram as suas vidas pelo nome do nosso Senhor Jesus Cristo» (Actos 15.26). Não admira ele ter escrito certa ocasião, "Não há maior loucura do que a do jogador, e nenhum jogador para Jesus foi alguma vez curado, graças a Deus!" Aos que o procuravam demover disse, "Cavalheiros, Deus chamou-me para que fosse, e irei. Incendiarei o rasto, ainda que a minha pedra tumular possa ser apenas um degrau para que os mais jovens possam seguir". Ele tomou à letra as palavras do Seu Mestre, «Aquele que perder a sua vida por amor de Mim e do evangelho achá-la-á». Os vinte anos seguintes provariam a verdade do último parágrafo, «achá-la-á».

Ele tinha que partir, mas não tinha nenhum dinheiro. Durante um culto surgiu-lhe um pensamento. Era a voz de Deus. "Porque é que não vais?" "Onde está o dinheiro?", perguntei. "Não podes confiar em Mim?", foi a resposta. Era como o sol a brilhar por entre as nuvens.  "É claro que posso", replicou. "Então onde jaz a dificuldade?", veio a resposta. Na segunda-feira de manhã, um amigo que até ali tinha sido para ele um completo estranho, pôs-me na mão cerca de 2.500$00. Imaginem a minha alegria e excitação. Com aquele dinheiro comprei a minha passagem para Port Said. É claro que aqueles 2.500$00 não me levariam a Port Said, muito menos a Cartum, mas Deus enviou-me supriu-me as necessidades dum modo admirável, e como resultado fui." Navegou no dia 15 de Dezembro de 1910. Teve de pisar o lagar só, pois nem a sua mulher o aprovou, mas o Senhor estava com ele e encheu a sua alma de glória e de visões da obra que iria ser realizada.

"Quando deixei Liverpool, ao retirar-me para o meu camarote, na primeira noite, Deus falou-me duma forma muito estranha. Ele disse, 'Esta viagem não é apenas para o Sudão, é para Todo o Mundo Não Evangelizado'. Para a razão humana a coisa era ridícula, mas a fé em Jesus ri-se das impossibilidades."

 "A minha alma está em fogo para realizar a obra de Cristo", escreveu ele a um amigo.

Entretanto escreveu com o coração para animar, confortar e encorajar a mulher. Sem dúvida que estas cartas devem ter ajudado a mostrar-lhe que Deus estava com ele de verdade, e a torná-la mais tarde uma ardente cooperadora:

"20 de Dezembro de 1912. De alguma forma Deus diz-me que toda a minha vida tem sido uma preparação para os próximos 10, ou mais, anos. Tem sido uma disciplina rígida. Oh, que agonia! A asma, o que não tem sido, - um morrer dia e noite! A fraqueza do corpo! O ser olhado de soslaio, desprezado, pelo mundo! A pobreza! E não tenho sido eu tentado? Tentado para parar de trabalhar para Cristo! Médicos! Amigos! Família! Crentes! Quem não declarou que eu tentei a Deus por me ter levantado e ido de novo? Mas não; foi Cristo Quem me levou; sei-o. E agora a montanha está conquistada. É como 'Albuera' - '600 soldados Britânicos imortais permaneceram inconquistáveis no monte fatal´. Só que este é um pobre verme fraco, uma criatura que Deus escolheu para pôr na fornalha ardente e andar ali com Ele, trazendo-o de novo para fora. E agora! Ah, sim, Ele parece estar a derramar saúde e força em mim, e um desejo ardente e consumidor para viver, viver para Cristo e para os homens. Glória! Glória! Glória! É Jesus, supremo! Ele é o meu principal amor e o meu Chefe! E agora, Scilla querida, toda esta separação é para nosso bem, e o que é muito melhor, é para a glória de Deus e a honra de Cristo! Creio nisto sem qualquer dúvida:

(1) A tua saúde será restaurada.
(2) Tornar-te-ás um enorme tição para o Senhor Jesus como nunca foste, e um maior poder do que o pobre fraco que eu tenho sido.
(3) As nossas raparigas serão guerreiras Cristãs afervoradas, e para Deus será toda a glória. Eu penso, e penso, e penso, e tudo bate sempre no mesmo - Uma Nova Cruzada. As coisas simplesmente surgem na minha mente e cabeça, e Deus fala-me sempre que amaino, e assegura-me de que irá fazer uma obra maravilhosa. Querida Scilla, lembras-te de Shangai? Bem, aqueles dias repetir-se-ão de novo, só que numa escala muito mais magnífica. Oh, esta Nova Cruzada, arde-me o cérebro e o coração. Tem de ser".

"23 de Dezembro. Junta-te a mim nesta cruzada. É o coxo que toma a presa. É quando somos fracos que somos fortes. Temos que chamar os Cristãos para a guerra. Estarás à minha mão direita. Serás uma pradaria incendiada. Serás o meu incentivo incendiando-me a fazer coisas maiores. Combateremos enquanto vivermos, e depois Ele dar-nos-á a coroa gloriosa, e tu ostentá-la-ás, não eu. Deus te abençoe, meu amor. Amo-te melhor na tua velhice que alguma vez na tua juventude."

"Janeiro de 1911. Reconsagremo-nos na nossa velhice ao Senhor Jesus. Ele tem feito muito por nós. Durante 24 anos Ele guardou-nos e guardou as nossas filhas e salvou-as. Queira Deus que como presente das bodas de prata nos dê esta nobre obra de fazermos o que Ele quer que seja feito para Ele em África. Temo que tenhamos sido muitas vezes frios e mornos no Seu serviço;  acabemos estes próximos 10 ou 20 anos das nossas vidas juntos no Seu serviço, nos lugares altos do campo. Esta é a nossa obra final para o Senhor Jesus e para as almas dos homens. Nada mais pode ser a pedra de remate das nossas vidas. Para nós não existe outro fim digno do Senhor Jesus, do evangelho, ou de nós mesmos: assim, tu e eu fá-lo-emos - fá-lo-emos pelo Senhor Jesus - e outros se levantarão e seguirão. Que Deus te abençoe, querida."

"Descendo o Nilo Deus falou-me de novo. 'Ousarias regressar para passar o resto dos teus dias em Inglaterra, sabendo das multidões que  nunca ouviram falar do Senhor Jesus Cristo? Se o fizesses, como é que te encontrarias depois Comigo diante do Meu trono?'"

"Nós devíamos encetar uma campanha por Cristo.", escreveu C.T., "Temos homens, os meios, e os caminhos - vapor electricidade e ferro têm cruzado terras e mares. As portas do mundo têm-nos sido abertas pelo nosso Deus. Oramos e pregamos; curvamos os joelhos; recebemos e administramos a Comunhão da Paixão de Cristo; recitamos o Credo triunfantemente; todos nós somos optimistas; gritamos 'Avante soldados Cristãos, marchemos para a guerra'. E então?... E então?... Sussurramos, 'Rogo-te que me hajas por escusado!!!' Que gloriosos embustes (intrujões, mentirosos, impostores) nós somos!"

"No passado mês de Junho na boca do Congo aguardavam um milhar de prospectores, comerciantes, vendedores e pesquisadores de ouro, esperando invadir estas regiões mal o Governo lhes abrisse a porta, pois corre o rumor que há abundância de ouro. Se estes homens ouvem tão alto a chamada do ouro e lhe obedecem, poderá ser que os ouvidos dos soldados de Cristo estejam surdos à chamada de Deus, e aos clamores das almas dos homens que perecem? Serão os que abrem a mão de tudo pelo ouro tantos, e os que abrem a mão de tudo por Deus tão poucos? ... Quando é que na verdade seremos uma real 'Igreja Militante aqui na terra'?"

"Somos os ninguém de Cristo, os etecetra de Cristo... "

"Regozijamo-nos e agradecemos a Deus  pela boa obra que está a ser realizada nas terras já ocupadas pelas Forças Regulares de Deus. Nós procuramos atacar e vencer para Cristo apenas aquelas partes do império do diabo que estão para além dos postos avançados extremos do exército regular de Deus. Os etecetras de Cristo são uma missão unida; uma irmandade Cristã, e, portanto, uma irmandade internacional; uma Cruzada para a Evangelização Mundial suplementar.

"O nosso método é sondar e descobrir que partes do mundo no presente permanecem por evangelizar, e depois, pela fé em Cristo, por meio da oração a Deus, através da obediência ao Espírito Santo, com coragem, determinação, e sacrifício supremo, realizar a sua evangelização com a máxima eficiência e rapidez.

"O Chefe, o Comandante, O Director desta Missão, é o Deus Trino.
"David escolheu 5 seixos do ribeiro para derrotar Golias. Por isso escolhemos as seguinte cinco pedras basilares para a nossa operação, às quais todos os que se juntem devem aderir:

 "(1) Fé Absoluta na Deidade de cada uma das Pessoas da Trindade.
 "(2) Crença Absoluta na Inspiração plena das Escrituras do Velho e do Novo Testamentos.
 "(3) Prometer solenemente conhecer e pregar nenhum outro a não ser Jesus Cristo e Este Crucificado.
 "(4) Obediência ao mandamento de Cristo para amar a todos os que amam o Senhor Jesus sinceramente sem fazer acepção de pessoas, e amar todos os homens.
 "(5) Fé Absoluta na Vontade, Poder, e Providência de Deus para satisfazer todas as necessidades no Seu serviço.

"Os fundos para esta obra serão procurados apenas em Deus. Ninguém pedirá donativos ou contribuições. Nenhuma colecta para a obra etecetra será levantada em qualquer reunião ou reconhecida por esta irmandade. Se buscarmos primeiro o reino de Deus e a Sua justiça, temos a promessa de Cristo de que Deus suprirá todas as nossas necessidades. Se degenerarmos em buscarmos algo mais, cedo deixaremos de existir, o melhor de nós, para o mundo e a causa de Cristo.

"O evangelista etecetra deve ser um homem de Deus e não um filho do homem. Não é um servo assalariado da Comissão Etecetra. É um servo de Jesus Cristo com Quem tem já estabelecido os termos do acordo. Não conhece nenhum outro Senhor. Não tem qualquer dúvida de que Deus suprirá as suas necessidades; leva sempre com ele o seu livro de cheques, e não tem qualquer receio dos cheques serem desonrados. Se a morte o surpreender no campo de batalha, sabe que isso será um sinal favorável do favor de Cristo, que assim o tem honrado e promovido mais cedo do que ele teria qualquer direito de esperar. Ao esperar de Deus o suprimento das suas necessidades, também espera d'Ele a sua direcção e deve obedecer-Lhe."

A mulher dele chorou muito com a sua partida, até que uma noite, uns dias antes dele partir ao ler o Salmo 34, «Louvarei ao Senhor em todo o tempo ... clamou este pobre, e o Senhor o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias ... Ele lhe guarda todos os seus ossos; nem sequer um deles se quebra» e Daniel 3.29, «... não há outro Deus que possa livrar como Este», deu-lhe a vitória. Ela disse que naquela noite riu o riso da fé, tendo adormecido cheia de júbilo.

Na véspera da sua partida para África, num rasgo de inspiração, C.A., colocou o pensamento do seu coração e da sua mulher numa frase, e essa frase tornou-se no lema da Cruzada. Um jovem companheiro conversando com ambos perguntou-lhe, "É verdade que aos 52 anos tenciona deixar o seu país, o seu lar, a sua mulher, os seus filhos?" "Porquê?", disse Charles Studd, "não estiveste a falar do sacrifício do Senhor Jesus Cristo esta noite? Se Jesus Cristo é Deus e morreu por mim, então não há sacrifício demasiado grande que eu possa fazer por Ele".

"Nós começámos a abrir mão de tudo por Deus e terminaremos como começámos, amando-nos um ao outro completamente e apenas menos do que amamos o Senhor Jesus".

"A Comissão sob a qual trabalho é uma pequena Comissão sem qualquer inconveniente, uma Comissão maravilhosamente generosa, que está sempre reunido em conselho - a Comissão do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

"Temos um multimilionário que nos suporta, de longe a pessoa mais rica no mundo. Tive uma entrevista com Ele. Deu-me um livro de cheques em branco e instou comigo para que o usasse. Ele assegurou-me que a sua Sociedade veste a erva do campo, preserva as aves do campo, conta os cabelos das cabeças dos filhos. Ele prometeu que o Chefe do Conselho prometeu suprir todas as nossas necessidades. Um dos Consócios, ou antes Dois, quis acompanhar cada um dos membros dos nossos grupos, e nunca nos deixará nem desamparará. Ele até me mostrou alguns testemunhos dos primeiros clientes. Um velho companheiro robusto com uma barba comprida e uma face que evidenciava tenacidade disse que numa ocasião o suprimento chegou e foi entregue por corvos negros, e um outro por um anjo vestido de branco. Um outro pequeno homem velho que parecia cicatrizado e cheio de marcas como uma casca de noz disse que fora salvo da morte vezes sem conta, pois tinha decidido pôr à prova a certeza de que se perdesse a sua vida por amor do Conselho a encontraria. Ele contou histórias mais maravilhosas do que novelas e as Noites da Arábia, de escapes e dificuldades, viagens e masmorras, e com um enorme fogo nos olhos e riso na voz, acrescentou, 'Mas de todas elas o Consócio me livrou'. Ele dizia que jogar tudo por amor a Cristo era o melhor jogo do mundo. ...

"Fez-me bem ver este velho guerreiro."

Entretanto chegaram ao Congo Belga, onde se fixaram, tendo passado por inúmeros perigos, incluindo leões, crocodilos, serpentes e canibais.

"Nós podemos confiar pouco n'Ele, mas nunca em demasia".

"Se um homem for fiel para com Deus está condenado a perder alguns amigos, mas Deus levanta sempre outros e mais verdadeiros para ocuparem os lugares vazios". Dum grande amigo que morreu a morte do herói em Dungu, com um ataque de malária ele disse, "Mesmo no seu leito de morte ele não se esqueceu de nós, tendo ditado uma carta que para mim vale mais do que o seu peso em ouro".

"Passámos por muitos lugares apertados, mas encontrámos sempre Deus ali".

 "Passados dois anos de muito caminhar começaram a evangelizar. Em Junho de 1915 converteram-se os primeiros doze.

"Cada um dos dezoito que se converteu seis meses depois trouxe uma pedra do rio que colocaram no meio da estação missionária como testemunho da sua dedicação a Deus. Aquelas pedras ainda estão ali, agora em volta da sepultura da bebé Noel Grubb, neta de C.T., que morreu em Nala, 1921, no seu primeiro aniversário.

Os testemunhos de alguns dos convertidos era impressionante, "O meu pai matou um homem, e eu ajudei a comê-lo." "Fiz bruxaria com as unhas dum cadáver, e matei um homem".

Ex-canibais, Bêbados, Ladrões, Assassinos, Adúlteros, e blasfemadores, entraram no reino de Deus.

Apesar da zona ser  pobre, os convertidos diziam que não queriam dinheiro mas a Deus.

A língua que estudaram para se comunicar com eles foi a Bangala, língua comercial, usada para propósitos comerciais entre as tribos, e entre brancos e nativos. Assim puderam contactar todas as tribos da região. Alfred Buxton, seu companheiro viria a ser seu genro. Ele produziu o Vocabulário Bangala e traduziu todo o Novo testamento e metade do Velho, usado em mais de 100 tribos.

"O plano de Deus somente requer uma coisa para o seu cumprimento. Não requer educação, nem talentos, nem juventude, nem força, mas tão somente fé." "Pela fé Abraão ... Pela fé Moisés" ... Pela fé Charles T. Studd ...

Devido ao agravamento súbito da doença da sua mulher, ele regressou a Inglaterra, aproveitando para fazer um périplo. Foi pela última vez á Inglaterra, urgindo e instando com o povo de Deus para que se erguesse e lutasse e se sacrificasse pelas almas que pereciam, pelo menos com tanto zelo e heroísmo como o revelado na Grande Guerra, que então estava no seu apogeu. Raras vezes alguma voz pleiteou tanto pela causa dos pagãos, como ele. Ele estava fraco e desgastado com as longas viagens. Tinha constantes ataques de malária. Por vezes ia para o púlpito cheio de febre, e pregando a temperatura descia ao normal.

"Há mais de duas vezes tantos Oficiais Cristãos uniformizados na pátria, entre os 40 milhões de habitantes Ingleses evangelizados, que todo o somatório das forças de Cristo que combatem na frente de batalha entre um bilião e 200 milhões de pagãos! E os tais ainda se chamam de soldados de Cristo! Interrogo-me como lhes chamarão os anjos. A brigada "salvemos primeiro a Inglaterra" está na sucessão apostólica dos "Eu rogo-te que me ajas por escusado".

"A chamada de Cristo é para alimentar os famintos e não os cheios; para salvar os perdidos e não os teimosos; não é para chamar os escarnecedores, mas os pecadores ao arrependimento; não é para construir e proporcionar capelas, igrejas e catedrais na pátria onde os Cristãos professos adormecem com mensagens eruditas, orações estereotipadas e realizações musicais artísticas, mas erguer igrejas vivas de almas entre os destituídos, capturar homens das garras do diabo e arrebatá-las das maxilas do inferno, alistá-las e treiná-las para o Senhor Jesus, e fazer delas um Exército de Deus Todo-poderoso. Mas isto só pode ser conseguido por uma igreja ardente, sem convencionalismos, desalgemada pelo Espírito Santo, onde nem a Igreja nem o Estado, nem o homem nem as tradições sejam adorados ou pregados, mas somente Cristo e Este crucificado."

"Uma reputação perdida é o, melhor doutoramento no serviço de Cristo".

"Estou mais do que nunca determinado em não colocar nenhum limite à nossa volta, a não ser o próprio Senhor, 'até aos confins', 'a toda a criatura'. Pertenço e pertencerei sempre ao grupo do Grande Deus' e não ao grupo do 'Pequeno Deus'.

"A dificuldade é  crer que Ele possa condescender em usar inúteis como nós, mas é claro que Ele quer Fé e Loucos em vez de talentos e cultura. Tudo o que Deus quer é um coração; qualquer nabo tem cabeça; estando vazios será óptimo, pois então Ele encher-nos-á com o Seu Espírito".

"O Espírito Santo transformará Cristãos moles, macios, em heróis vivos e ardentes para Cristo, que avançarão, combaterão e morrerão, e não marcarão passo. Corramos para o céu; um acidente significa precipitarmo-nos nos braços do Senhor Jesus - tais acidentes são as bênçãos de Deus mais escolhidas. Não sejas um comboio de carga."

"Loucos 'cortariam' o diabo, pretendendo eles não o verem; outros erigem uma tábua sobre o seu suposto sepulcro. Sede sábios; não o corteis nem o sepulteis; matai-o com a baioneta do evangelismo.

"Hastear a bandeira é o que devemos fazer. Que bandeira? A bandeira de Cristo, a obra que Ele nos deu a fazer - a evangelização de todos os ainda por evangelizar. Cristo não quer piscos do possível, mas devoradores do impossível, pela fé na omnipotência, fidelidade e sabedoria do Salvador Todo-poderoso, o Qual deu a ordem. Existe um muro no nosso caminho? Pelo nosso Deus saltá-lo-emos! Há leões e escorpiões na nossa senda? Calcá-los-emos com os nossos pés! Uma montanha barra o nosso progresso? Dizendo, «afasta-te e lança-te no mar», continuaremos a marchar. Soldados de Jesus! Nunca se rendam! Hasteai a bandeira!"

"Os que olham para o Senhor Jesus tornam-se gafanhotos à Sua vista, mas gigantes na estima do diabo."

"Segui-Me, diz o Senhor Jesus. 'Eu quero', replicamos, ainda que alguns se esqueçam que Cristo não se agradou a Si mesmo, fez-Se deliberadamente pobre para salvar os outros e tornou-se o primeiro missionário estrangeiro. Todos nós oramos para sermos como o Senhor Jesus, no entanto recusamos pagar o preço. Como é que Divas   pode ser como o Senhor Jesus?"

"As migalhas dos Divas não são ementa que se coloque diante do Rei Jesus. "

"E se C.T. morre?" Esta questão louca e frequente deve ter uma resposta. Eis o que o próprio C.T. diz, "Todos cantaremos Aleluia!  O mundo terá perdido o seu maior louco, e ficará com um louco a menos para o atrapalhar, mas Deus fará ainda maiores proezas. Não haverá funeral, nem grinaldas, luto ou lágrimas, nem mesmo a Marcha Fúnebre. Ocorrerão felicitações por toda a parte. «E, ainda que seja oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, folgo e me regozijo com todos vós. E vós, também, regozijai-vos e alegrai-vos comigo, por isto mesmo» (Fil. 2.17,18). A Marcha Nupcial a especial pedido. O nosso Deus ainda estará vivo e nada mais conta. O primeiro funeral da Missão para o Coração de África ocorrerá quando Deus morrer, mas como isso não acontecerá antes do depois da eternidade, coragem, nada de desanimar, alegremo-nos todos. Avante! Todos alinhados atrás d'Ele. Aleluia! «o morrer é ganho».
Alguns querem viver ao som
Do sino da Igreja ou da Capela,
Eu quero trabalhar num posto de salvamento
A um metro do inferno.

Em Julho de 1916 estava tudo pronto para o seu regresso a África. Um grupo de oito estava pronto. Incluía a sua filha Edith, que se iria casar com Alfred Buxton. A reunião da despedida foi fixada a 14 de Julho. O anúncio do programa dizia, "Não se esqueçam do dia 14 de Julho. Todo o dia em oração e louvor, das 10h às 22h, em  Central Hall, Westminster". Esta reunião era foi o seu adeus a Inglaterra e quase o seu adeus à mulher.

 "A reverência dos nativos crentes era proporcionalmente inversa ao conforto dos seus assentos".

 "Se toda a conversão na minha pátria é um milagre, aqui é um milagre mil vezes maior".

 Durante quatro anos Alfred Buxton permaneceu  no seu posto de dever a despeito das chamadas urgentes paravoltar à patria e casar com a noiva.

 Numa reunião debaixo duma mangueira deu-lhes os seguintes conselhos:

"1. Se não desejardes encontrar o diabo ao longo do dia, encontrai o Senhor Jesus ao amanhecer.
"2. Se não queres que o diabo te atinja, atinge-o tu primeiro, e atinge-o com todas as tuas forças, de tal modo que ele fique coxo e não consiga voltar atrás para voltar a atingir-te. «Prega a Palavra», é a vara que o diabo teme e odeia.
"3. Se não queres cair - anda, e anda direito e depressa!
"4. Três dos cães do diabo com que ele caça, são:

 Cabeça inchada.
 Preguiça.
 Cobiça.

"Após a reunião apressaram-se a perguntar, 'Até quando permaneceremos fora?' Eu repliquei, 'Se estiverdes cansados voltai ao fim de um mês; se não, voltai ao fim de dois,; se puderdes ficar três meses será muito bom!' 'Oh, não', disse um, 'eu não voltarei senão após um ano'. Outro disse, 'Não me voltareis a ver senão passados dezoito meses'. E saíram a cantar,

"Eu amo a Jesus Cristo,
Jesus ama-me;
E no mundo nada mais interessa.
Estou possuído de gozo abundante."

O primeiro convertido em Nala dizia, "Não há nada exterior que possa tirar o gozo interior".

Um dia um orou assim, baralhado, "Obrigado, obrigado, Pai celestial, muito obrigado, mataste o meu pai e a minha mãe, muitas, muitas graças. Também me deste a salvação e me lavaste os meus pecados e mudaste o meu coração, obrigado, muito obrigado, Pai celestial; e agora quero que convertas a minha mulher, e se eu tenho uma mulher quero que Tu lhe laves os pecados e mudes o coração, e se eu tenho duas mulheres desejo que faças o mesmo a ambas. Obrigado, muito obrigado, Pai celestial, Amém!" Quando um dia ele manifestou o desejo de ser recebido em comunhão na igreja, Alfred perguntou-lhe, "Mas, Bondo, e as tuas duas mulheres?" "O, está tudo certo", disse ele, "Eu tenho que ter a salvação, e realmente só quero uma mulher, e penso que é melhor ir para o céu que ter duas mulheres; sim, penso que é melhor ir para o céu do que ter três mulheres, assim, por favor inscreva o meu nome!!!".

"Eles podiam não ter muitos talentos; mas sabia que possuíam o maior de todos os dons, o amor. Quando um dia estava de cama. Vieram 6 deles e ajoelharam-se em volta da cama a orar por mim. Oravam sem que alguém lhe tivesse pedido e espontaneamente".

 Charles Studd regia-se pela máxima, "Pregarei como se não volte a pregar de novo, e como homem moribundo a homens moribundos".

 Alfred foi para mim um filho leal e um companheiro de coração. Ninguém a não ser Deus pode saber a profunda comunhão, alegria e afeição do nosso convívio diário social e espiritual, pois não há palavras que a possam descrever.

 Quando se separaram para servirem o Senhor em lugares diferentes, Alfred quis que C.T. lhe impusesse as mãos. Ele disse que sim, mas na condição de ele fazer o que este lhe dissesse. Fê-lo assentar na sua cadeira, e o testemunho do que se seguiu, contado por Alfred, é impressionante. "Este homem, duas vezes a minha idade, missionário com 5 vezes mais tempo do que eu, que tem feito para Deus 10.000 vezes mais do que eu, este homem recusou impor as mãos sobre a minha cabeça, escolhendo em vez disso os pés. Alfred partiu com a mulher com quem entretanto se casara e mais quatro, e Susan a filha, a primeira bebé branca nascida no coração de África.

Alguns dos líderes caíam em pecado, e C.T. tornou-se cada vez mais consciente da necessidade duma obra mais profunda nos corações das pessoas.

As reuniões de oração começavam de manhã muito cedo. A reunião era suposta começar às 5h 30m, mas eles levantava-se às 5h e começavam a cantar e a orar. "E que orações eles fazem!", dizia C.T.. Muitas vezes penso que são as orações destas pessoas ( e claro, dos da minha pátria) que me mantêm vivo. Quando eles cantavam hinos a Deus com os seus corações e línguas e vozes - um enorme coro não treinado nem pago - faziam melhor melodia a Deus e a nós do que um coro de mil Carusos.

Nos cultos eles pareciam beber as palavras do pregador.

Em 1922 ele moveu o seu quartel-general para Imambi. Para aquela região ele era tanto um apóstolo como Paulo para a Ásia Menor. Eles chamavam-no "Bwana Mukubwa" (Grande Chefe Branco)

Um pregador um dia usou uma moeda para explicar a dádiva da salvação, dizendo, "O primeiro que vier tê-la-á". A réplica que teve foi o maior choque da sua vida, "Mas, senhor, nós não viemos aqui por causa do dinheiro, mas para ouvir as palavras de Deus". Um outro pregador alongou-se na pregação e no fim pediu desculpa por isso. A voz dum velho fez-se soar, "Não pare senhor! Não pare! Alguns de nós somos muito velhos e nunca ouvimos antes estas palavras, e temos já muito pouco tempo para as ouvir no futuro".

 Quando alguém o reprovava por ele não regressar à pátria ele dizia, "Se me tivesse deixado afectar pelos comentários das pessoas nunca teria sido um missionário. Como Miqueias disse, «a Palavra que Deus me der para falar falarei», assim também a obra que Ele me der a realizar esforçar-me-ei por a cumprir ou morrerei nessa tentativa. Ao ver que há uns 40 anos, a mandado do Senhor, deixei  mãe, irmãos, amigos, fortuna e tudo o que usualmente se pensa que vale a pena viver, e tendo continuado assim desde então, apesar de ter sido chamado louco e fanático repetidas vezes, constato que vivi para provar que os conselheiros mundanos é que eram loucos ... «Maldito o homem que confia no homem» não constitui uma boa almofada para um homem que está prestes a morrer, mas há muito conforto nesta outra, «Bendito o que confia no Senhor».

"Não posso fazer ouvidos moucos  ao clamor dos que clamam pelo evangelho e suplicam por ensinadores. Se não lhes posso enviar ensinadores porque não os há, pelo menos eu posso colmatar o hiato. Se não sou tão eficiente quanto os mais jovens, posso, apesar disso, e ainda assim, ser mais eficiente do que um ausente, ou ninguém. Se outros falham em ouvir e responder a estas enormes súplicas de homens pecadores que vão para o inferno, mas desejam conhecer o caminho para o céu, pelo menos a minha presença pode assegurar-lhes que ainda há alguns que, para salvá-los, não se importarão de dar a sua vida ... Deus sabe tudo acerca da minha saúde e da necessidade de descanso e da necessidade de muitas coisas tidas como absolutamente necessárias à vida nestas paragens. Eu rio-me de alegria por estar sem elas, e regozijo-me numa morte viva com um gozo maravilhoso, por ter ocupado o lugar que outros deixaram  vago quaisquer que tenham sido as razões que os tivessem levado a fazê-lo."

Carreira e fortuna tinham sido colocados no altar no início, agora a saúde, o lar e a vida famíliar também. De facto, C.T. disse uma vez, "Tenho sondado a minha vida e não tenho conhecimento de que algo mais tenha restado que não possa sacrificar ao Senhor Jesus".

"Se sanidade significa Modernismo e não almas, que Deus nos ajude a nunca sermos sãos".

 Como resultado do exemplo de C.T. partiram para o coração da Amazónia. Quando C.T morreu haviam já 16 missionários ali em três tribos. Outros partiram para a Ásia Central e outros anda para a Arábia e África Ocidental. Em 1923 haviam nas áreas onde ele se encontrava, na África Central, 40 missionários.

 Nunca nenhum apelo por fundos foi alguma vez realizado, nem colectas tiradas em reuniões, nem mealheiros colocados nas entradas dos lugares de culto, nem nenhum outro meio que estimulasse as ofertas foi usado, tal como vendas de obras realizadas, bazares, etc.  A obra foi iniciada e levada a cabo numa confiança absoluta na fidelidade de Deus, que prometeu, «Buscai primeiro o reino de Deus e a Sua justiça; e todas estas coisas vos serão acrescentadas». A base missionária não era responsável em qualquer sentido pelo sustento dos missionários; era um mero canal de suprimento; nem sequer se preocupavam se os montantes enviados para o campo missionário eram grandes ou pequenos; os que ali serviam não sentiam nenhum peso de responsabilidade quanto a isso, pois tratava-se duma questão apenas entre o Senhor e o servo, o Pai e os filhos. Não havia salários fixos, nem pensões ou mesadas, para qualquer dos campos missionários.; o montante apurado em cada mês era enviado para cada um dos obreiros dividido em partes iguais."

Ao longo dos 20 anos da existência da cruzada missionária nunca houve qualquer dívida. Apenas naqueles 20 anos Deus deu a C.T.  quase 5 vezes a quantia que ele dera ao Senhor quando estava na China. Bem-vinda penúria!

 Na China, anos antes, Booth-Tucker tinha escrito a C.T., "Lembra-te que o ganhar almas é uma obra comparativelmente fácil, e não é tão importante como a transformação de salvos em Santos, Soldados e Salvadores." Este desafio era agora colocado a Studd no coração de África. Enquanto em Nala houve um primeiro período de muitas respostas aparentes e de muitas recepções à comunhão, depois seguiu-se muita desilusão, evidência de pecado, ociosidade e egoísmo mesmo entre os líderes e evangelistas, e uma grande necessidade do enchimento do Espírito. desde o princípio que ele não estava satisfeito com uma obra de pouca profundidade. Ele aprendera a lição na China, quando visitou as estações missionárias de grande reputação e descobriu, depois de uma inspecção mais atenta, a pouca evidência de uma obra divina profunda. Pelas Escrituras ele denunciou a fé que não produzia obras como uma fé espúria, falsa.

"Cristo veio para nos salvar pelo Seu sangue e pelo Seu Espírito - lavar os nossos pecados passados com o sangue, mudar os nossos corações e capacitá-los a viver correctamente pelo Espírito. Ele não veio para salvar-nos nos nossos, mas dos nossos pecados. Ele veio para salvar os pecadores e torná-los justos. Cristo não morreu para capacitar um homem a pecar com impunidade; «as Minhas ovelhas seguem-Me», e os que seguem Cristo andam como Ele, e Ele não andava no pecado. João disse, «aquele que não pratica a justiça não é de Deus» e «aquele que peca é do diabo». Nós cremos na Bíblia; nós comprometemo-nos a isso; nós não rebaixaremos, de modo algum, os seus padrões na face do inimigo".

"Estamos gloriosamente descontentes com a condição da igreja nativa. É bom cantar hinos e participar na adoração, mas o que temos de ver é o fruto do Espírito, uma vida e coração realmente transformados, aversão ao pecado, e paixão por justiça. Deus pode fazê-lo e nós não podemos ficar contentes com nada menos; necessitamos e temos de ter a atmosfera e o temporal do Espírito, e consegui-lo-emos. Ele pode salvar até aos confins aqueles que vêm a Ele por Jesus. É para Sua glória se o fizermos, mas será para nossa vergonha, se os crentes, brancos ou pretos, não andarem de acordo com o Espírito de Jesus, e este é o Espírito de Santidade e de Serviço e de Sacrifício.

"Estas pessoas fugiram do inferno e do diabo. Abriram  mão da feitiçaria e da bruxaria, que não foi coisa de pequena monta. Alcançaram o Mar Vermelho, têm cantado hinos de alegria, chegaram ao deserto; agora as tentações e a cruz começaram a surgir, seguidas as murmurações ... Vários sinais começaram a tornar-se aparentes. Um dos piores sinais é o da preguiça. Sentar numa cadeira e conversar é o desejo de toda a gente. Trabalhar é loucura. Sabedoria é deixar os outros fazerem toda a obra. O Cristianismo assimilado por estas pessoas não corrigiu isto; se puderem, todos se esquivam. Depois, também, o seu Cristianismo não tem produzido amor.  Onde está o seu amor para com Deus? Cantam-no, talvez falem dele, mas quando chega o momento de se sacrificarem por Deus, ou de trabalharem para Ele, o amor deles esvai-se. Depois há a terrível ausência do temor de Deus. O temor de Deus odeia o mal, e o amor de Deus ama a justiça. A ideia geral parece ser que, visto estarem lavados no sangue do Cordeiro, e irem para o céu, não interessa se mentem, ou enganam, ou furtam, e cometem adultério ou prostituição."

"Agora pensem no poder necessário para salvar uma pessoa num tal ambiente. De facto vivemos a um centímetro do inferno e os seus fumos envolvem-nos noite e dia. E perante isto, vamos ficar abatidos? ALELUIA, não! Glória seja dada a Deus! Sabemos que venceremos pelo sangue do Cordeiro e pelo poder do Espírito Santo, e com a ajuda das vossas orações."

 Na estação missionária houve alguns que se opuseram à forte ênfase de C.T. sobre a necessidade absoluta da santidade prática nas vidas de todos os verdadeiros crentes. Houve também alguns que realmente não quiseram os padrões da simples fé e sacrifício supremo sobre que foi fundada a missão, que significava viver em casas construídas pelos nativos, alimentação modesta, ausência de feriados, ausência de recreios, absorção completa na tarefa de salvar os pagãos. Houve uma oposição submarina à liderança da obra por parte de C.T., que acabou por ter de ser obrigado a mandar embora dois dos obreiros na missão e outros a renunciarem.

"Temo muito que o ruído e espuma substituam o fogo divino entre nós. Vejo que há uma enorme necessidade de solidez entre muitos. Noto que há conversa em demasia e tempo demais gasto com a comida, mais do que deveria ser; noto também muitas vezes que o fundamento original do sacrifício supremo é substituído pela gratificação do ego. Ah, precisamos de ser intensos, e a nossa intensidade tem que aumentar. Temos que estar sempre na crista da onda, e de tudo o mais, pois em nosso derredor tudo está mergulhado no mar do pecado.

"Que diferença faz o amor.  O Salvador sabia disso e por isso ordenou-o. Não nos poderemos amar a todos, aqui? Negaremos o Senhor suspeitando-nos indignamente uns aos outros? A suspeita subtrai, a fé acrescenta, e o amor multiplica; abençoa duas vezes, ao que recebe e ao que dá ... Que seja esta a nossa regra. Então não haverá regras, pois a regra do amor mantém automaticamente operacionais todas as outras regras. Ele fez dos Seus ministros 'uma labareda de fogo' - não 'labaredas', mas 'labareda', pois são e devem ser uma bendita unidade, ou o Senhor não abençoará como poderia e desejaria."

"A bênção veio uma noite em 1925. Nessa noite nasceu uma nova missão, ou antes a missão original renasceu. Deus começou a levantar uma nova geração de 'inconquistáveis'. Será que Deus nos dará como deu aos de Hebreus 11? Sim! Quais são as condições?  As mesmas de sempre, 'Vende tudo!' O preço de Deus é só um. Não há desconto. Ele dá TUDO aos que dão TUDO. TUDO! TUDO! TUDO! Morte a TODO o mundo, a TODA a carne, ao diabo, e talvez ao pior inimigo de todos - TU MESMO".

Bwana ergueu-se e disse, "É disto que necessito, e é isto que quero! Oh, Senhor, doravante não estou preocupado com o que me possa acontecer, vida ou morte, sim, ou até inferno, desde que o meu Senhor Jesus Cristo seja glorificado." Um após outro, todos os presentes se levantaram e fizeram o mesmo voto, "Não estou preocupado com o que me possa acontecer, alegria ou lágrimas, saúde ou dor, vida ou morte, desde que o meu Senhor Jesus Cristo seja glorificado." Os livros fecharam-se, as cabeças curvaram-se uma vez mais em oração silenciosa, e todos se levantaram e dispersaram. Mas naquela noite um novo grupo deixou a choupana, não sendo mais o grupo que era duas horas antes. Havia riso nas suas faces, e brilho flamejante nos seus olhos, uma alegria e amor indizíveis, pois cada um tinha-se convertido num soldado, num devoto até à morte, para a glória do Rei Jesus, seu Salvador, que tinha morrido por eles; a alegria da batalha possuía-os, a alegria que Pedro descreveu como inefável.

Muitos votos de consagração tinham sido feitos no passado, mas este era algo muito mais profundo. Eles estavam dispostos a morrer apesar de nunca terem visto a vitória; os homens de fé de Hebreus 11 morreram «sem terem recebido as promessas», »não aceitando o seu livramento»; e aqueles que fizeram este voto tinham agora prometido solenemente regozijarem-se em Deus e proclamarem os Seus louvores, não meramente quando as coisas iam bem, mas na fome, no insulto, no aparente fracasso, na morte, no cumprimento da sua comissão em pregar o evangelho aos pagãos.  Tinham-se tornado "inconquistáveis"; pois aqueles que têm morrido em espírito já, por sua própria escolha, estão para além de ser movidos por ameaças e assaltos do diabo, vivendo já uma vida ressurrecta e ascendida, usando todas as tentações ou assaltos do diabo como mais fuel para as chamas da fé, louvor e amor.

A bênção estendeu-se à estação missionária mais remota. A unidade, amor, alegria no sacrifício e zelo pelas almas, tornaram-se admiráveis no coração de África. Nem um murmúrio se ouvia, conquanto baixas pudessem ser as reservas financeiras, mas apenas expressões de louvor e de confiança em Deus. Casais colocavam a sua obra diante dos seus lares; um jovem casal recém-casado, poucos dias após o seu casamento, ofereceu-se para estarem separados em diferentes estações missionárias, devido à escassez de obreiros. Mulheres solteiras evangelizavam aldeias, onde havia falta de homens; num só distrito, o pior em canibalismo da região, foi conduzido a Cristo por uma única mulher missionária que visitou a aldeia.

 Um crente foi agredido por testemunhar, e em vez de se julgar maltratado, ergueu-se para dar um aperto de mãos ao chefe por este lhe ter dado a honra de sofrer pelo Senhor Jesus. Devido a isso foi de novo agredido, tendo ficado desta vez de joelhos enquanto orava pelo chefe. Foi lançado na prisão; mas dentro de algumas horas um enorme grupo de crentes veio ao chefe pedindo-lhe que lhes desse a honra de também serem presos pelo Senhor Jesus juntamente com o seu irmão!

 Ultimamente, desde a morte de Bwana, 47 nativos passaram uma noite inteira em oração, dizendo que antes tinham dançado noites inteiras para o diabo, e que agora tinham muito prazer em orar a noite inteira para Deus. E assim a lista poderia ser estendida.

Os últimos 5 anos da vida de Bwana foram empregues, numa forma cada vez mais crescente, a salvar as almas e a conduzi-las ao enchimento do Espírito Santo, incitando-os a combaterem pelo Senhor Jesus. Parece haver apenas um versículo que caracterize aqueles anos: «o zelo da Tua casa me devorou». As coisas que normalmente ocupam um largo espaço na vida humana eram reduzidas ao mínimo absoluto ou completamente ignoradas; comida, apenas um prato cheio a horas incertas; sono, apenas 4 horas em 24; feriados, nem um único em 13 anos; conforto, um pouco mais abaixo será descrita a sua "casa"; vestuário, um casaco e uma camisa de caqui, calções e meias, tanto aos domingos como dias de semana; livros, praticamente apenas a Bíblia.

Ibambi será sempre conhecida como a casa de Bwana no coração de África. Ele vivia numa palhota circular em que as paredes eram feitas de bambu e lama seca. Havia nela cerca de 7 ou 8 mantas de caqui. A sua almofada era feita de lona. Ao pé da cama tinha uma mesa improvisada que estava cheia de medicamentos, papel, leite, tesoura, lápis, etc. Era seu costume usar uma Bíblia nova todos os anos a fim de nunca usar as velhas notas e comentários, e para partir para a Escritura sempre com uma nova frescura. O seu quarto, sala de jantar e sala de estar era uma divisão única. Quantas reuniões se realizaram ao pé daquela cama! Quantas conversas bem nocturnas e bem matutinas se fizeram ali com missionários e nativos  que dali saíam para viver uma nova vida para Deus! Aos pés da cama havia uma pequena lareira de barro. Havia lá um rapaz "o seu rapaz" que, durante anos, o assistiu com a devoção duma mulher. Tinha uma perna hirta, pelo que o chamavam de o "perna única". As coisas começavam a mexer-se entre as 2h e 30m - 3h 00m. O "perna única" despertava como um despertador. A primeira coisa que ele fazia era acender o fogo para aquecer a água a fim de fazer um chá. Entretanto Bwana acordava. O chá era-lhe entregue e o rapaz voltava a dormir. Bwana pegava depois numa Bíblia e ficava ali a sós com Deus. O que se passava entre eles naquelas horas silenciosas era conhecido algumas horas depois de todos os que tinham ouvidos para ouvir. A reunião com os nativos, de manhã, raramente durava menos de 3 horas, quando Bwana a dirigia. A reunião de oração com os brancos à noite era entre as 7h e as 9h-10h p.m.. Para as suas reuniões ele não precisava mais do que aquelas primeiras horas da manhã. Ele não se preparava. Ele falava com Deus e Deus falava com ele, e fazia a Sua Palavra viver nele. Ele via o senhor Jesus. Ele vivia homens e mulheres aos milhões a caminharem para o inferno. Quanto à preparação ele dizia que tudo o que uma pessoa precisava era ficar a sós com Deus e ficar tão incandescente que a língua se tornasse numa brasa viva para falar do evangelho.

Normalmente as reuniões começavam com uma hora a cantar hinos, que eles muito gostavam, acompanhando Bwana com o seu banjo. Quase todos os hinos (cerca de 200) tinham sido escritos por ele. Quando pregava começava bastante calmo no início, falando do que tinha lido, revestindo a parábola ou a história Bíblica com roupagem nativa - as pessoas vestidas de peles, o pão tornava-se banana, os camelos tornavam-se elefantes, a neve tornava-se cal. Ele falava normalmente uma hora e um quarto, uma hora e meia ou até mesmo duas horas. As reuniões terminavam com todos a dizerem em uníssono, "Deus é. Jesus vem cedo. Aleluia!".

A última reunião em que vi Bwana foi numa destas, em 1931 . A igreja era um grupo de cerca de 1000 adultos - 600 homens e 400 mulheres, declarando-se todos rendidos a Cristo. Nunca me esquecerei a alegria radiante naquele mar de faces.

 C.T. Studd tinha uma série de problemas com os seus dentes, ou os poucos que lhe restavam. Um dos missionários sugeriu-lhe que fosse à Inglaterra tratar da boca, ao que ele respondeu que se fosse da vontade de Deus que a sua boca fosse arranjada Ele enviar-lhe-ia os dentes. Talvez nos ríamos disto, mas Deus atendeu e enviou-lhos. Alguns meses depois um dentista em Inglaterra decidiu ir ter com C.T. Studd, mesmo contra a vontade do comité missionário em Inglaterra. por achar que ele possuía 10 anos a mais da idade limite recomendável. Esse dentista chamava-se Buck. Ao chegar extraiu os dentes que restavam a Bwana. Ele disse que a primeira coisa que Deus o mandou fazer ao chegar foi arranjar dentes para C.T. Studd. Notemos que Deus enviou este dentista para arranjar a boca do Seu servo que não podia regressar a Inglaterra. Imaginemos agora a cena num domingo quando Bwana começou o culto com os seus dentes novos. No entanto durante a oração ele removeu-os. Após a oração o rosto dos nativos era de espanto e de consternação. Quem teria extraído os dentes a Bwana enquanto ele orava? A partir daí onde quer que ele surgia os nativos observavam-no para se certificarem se era o velho ou o novo Bwana.

Apesar dos novos dentes o capacitarem a comer melhor, era óbvio que ele enfraquecia a olhos vistos. Por vezes tinha severos ataques de febre, e sofria de contínuo sofrimento de má digestão.

Apesar da sua fraqueza física ele achava que não podia deixar as multidões em redor de Ibambi sem a Palavra de Deus. Na província de Welle já havia uma considerável tradução feita para a língua Bangala, mas na província de Ituri, onde a língua usada era o Kingwana, ainda não havia nada. A despeito da enorme quantidade de trabalho que ele estava já a fazer, ele determinou também traduzir o Novo Testamento para Kingwana. Tratou-se duma proeza intelectual maravilhosa para um homem já de setenta anos. Ele trabalhou de noite e de dia.. "Os meus dias", escreveu ele, "são em geral de dezoito horas, e sem refeições, excepto algumas coisas que engulo enquanto escrevo". Enquanto ele traduzia, Harrison dactilografava. Ele acabou a obra e mais tarde também traduziu Salmose extractos de Provérbios à custa das suas forças restantes. Ataques de coração sucediam-se uns aos outros. Em 1928 esteve tão doente durante uma semana que pensou não poder continuar a viver. No entanto ele recuperou gradualmente, mas estava tão fraco que não podia se erguer da cama e trabalhar e muito menos tomar reuniões, sem a ajuda de morfina. A ambição e oração de C.T. era morrer a morte dum soldado no campo da batalha, e não ser cuidado pelos seus co-obreiros durante meses ou anos com um inválido. Quando ele deixou a China era um museu de doenças, e nunca mais se libertou desse quadro clínico.

Deus deu-lhe a ver os dois grandes desejos do seu coração - a unidade entre os missionários e as evidências manifestas do Espírito Santo a operar entre os nativos.

Provavelmente, os tempos que perdurarão mais na memória com Bwana serão as reuniões em Ibambi. Mais do que tudo o mais eles mantiveram a missão no verdadeiro fundamento de toda a obra espiritual - a Bíblia e a oração. Não havia limites de tempo, mas ele simplesmente abria a Bíblia, lia 2 ou três capítulos, e depois falava. As epístolas eram os seus livros favoritos. Uma hora, duas horas, em dias de Conferência iam até depois da meia-noite, noite após noite, era sempre o mesmo, os corações ardiam quando se encontravam com o Senhor Jesus. A maior de todas as lições que se aprendeu foi que se os obreiros querem poder e bênção contínua, têm que dar tempo para se reunirem diariamente, não por um curto período de tempo numa reunião formal, mas durante o tempo suficiente para que Deus fale através da Sua Palavra, para enfrentarem juntos os desafios da obra, tratarem de algo que se levante para impedir a unidade, e depois apresentarem-se diante de Deus em oração e fé. Só este é o segredo da vitória da guerra espiritual. Nenhuma quantidade de trabalho árduo ou pregação fervorosa se pode constituir substituto.

Os nativos estavam tão ávidos de o ver e ouvir que viriam 2.000 onde ordinariamente estariam 1.000.

Em 1929 ele teve conhecimento da partida para a glória da sua mulher enquanto visitava a Espanha. No ano anterior ela tinha-lhe feito uma visita de avião só por uma noite. Uns 2.000 nativos crentes reuniram-se para a verem. Eles costumavam dizer que a mulher do seu Bwana estava no seu país natal tão ocupada com os homens e mulheres brancos falando-lhes do Senhor Jesus Cristo, que não podia vir; mas eles viram-na na carne e realizaram que de facto havia uma tal pessoa como  "Mamã Bwana". Foi então que compreenderam como nunca, duma forma que não há palavras que expressem, o preço que Bwana e a sua mulher pagaram para lhes trazer a salvação.

A despedida foi muito difícil e a Sra. Studd não queria partir, mas o calor ali era-lhe difícil de suportar e a obra requeria-a em Inglaterra. Eles despediram-se na sua casa de bambu, sabendo que seria a última vez que se encontrariam na face da terra.
 Em 1930 C.T. foi feito "Cavaleiro da Ordem Real de Leão" pelo Rei dos Belgas devido aos seus serviços no Congo.

 Poucos meses antes de morrer teve um vislumbre do pico da ambição missionária: a igreja nativa ter visão missionária  e enviar pioneiros para as regiões além.

De todos os crentes nativos não houve nenhum que ele amasse tanto como o canibal convertido, Adzangwe.

 Na domingo da semana da sua morte conduziu uma reunião durante 5 horas. No leito da sua morte todos os que o rodeavam só o ouviam dizer "Aleluia! Aleluia!". A sua última carta escrita a missionários terminava com "Aleluia!". A última palavra que ele proferiu nesta vida foi "Aleluia!".

Quando C.T. Studd partiu para África com Alfred Buxton ele alcunhou-se a si mesmo e a Buxton como "o burro de Balaão e a pomba de Noé", respectivamente.

Já dissemos como Studd e a mulher confiaram deliberadamente as suas vidas e as das suas filhas a Deus., e como Ele guardara as suas 4 filhas, como as convertera, como tinha providenciado para a sua educação, e como 3 casaram com homens cujas vidas estavam completamente devotadas ao serviço de Cristo. O marido da mais velha tinha sido um brilhante soldado, comandando um regimento, tendo recebido uma série de condecorações na Guerra, mas nunca se rendera a Cristo. Ele e a mulher vieram da Rodésia (agora Zimbabwe), onde viviam, dois anos antes da morte de C.T., e viveram temporariamente na casa que dava apoio aos missionários em África, em Norwood, Inglaterra. Gradualmente ele começou a interessar-se e aceitou um convite para ir à convenção de Keswick em 1931. Na noite de 16 de Julho, quinta-feira, na precisa hora em que na casa de bambu no coração de África, C.T. dava o seu último suspiro de Aleluia, o apelo para a rendição a Cristo foi feito na tenda em Keswick, e o genro de Studd, Coronel David Munro, convertia-se. O último hiato no círculo da família fechava-se, e todos os oito, as quatro filhas e os quatro genros, uniam-se ao seu pai e mãe na sua aliança a Cristo.